Thursday, March 1, 2012

Rubem Fonseca 'superstar'



Sempre bem-disposto, acessível, sorridente. Até falador. Eis a imagem que Rubem Fonseca deixou nas Correntes d'Escritas. Sim, falamos mesmo do escritor brasileiro, aquele que não gosta de ser visto, nem entrevistado, aquele que, por ser tão cioso do seu espaço, é uma espécie de passageiro clandestino da literatura brasileira. Um mito.
A ocasião, diga-se, não era para menos. Em Portugal, Rubem Fonseca sentiu-se em casa. Ganhou o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído ao romance Bufo & Spallanzani, e recebeu duas medalhas de mérito cultural, do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa. Da parte dos leitores, o entusiasmo não foi menor. Em ano de cortes orçamentais, o escritor foi o grande trunfo deste encontro de escritores de expressão ibérica, organizado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. E não desiludiu.
Com uma receção calorosa - e talvez por sentir que, aos 86 anos, esta terá sido a última visita à terra dos seus pais, que diz amar profundamente, tal como à língua portuguesa -, Rubem Fonseca abriu o livro da sua vida.E revelou o que fez dele (e pode fazer de toda a gente) escritor.
Quando chegou a sua vez de falar, na primeira de sete mesas-redondas das Correntes, animadas por cerca de 60 autores, declarou-se filho da escola «peripatética», a dos seguidores de Aristóteles, que, para pensar, andavam. Levantou-se e encarou o público. Cerrando os punhos, num gesto vigoroso que haveria de repetir muitas vezes, disse: "Para ser escritor é preciso ser louco." E citou o norte-americano E. L. Doctorow, para quem escrever era uma forma socialmente aceite de esquizofrenia. Claro que esta loucura, pessoal e intransmissível, não é suficiente. "Convém ser alfabetizado", brincou. "Mas não muito."
A estes traços de personalidade é necessário acrescentar outros, continuou. A «motivação», pois, sem ela, «nada se faz». Também a paciência. Não uma qualquer, mas a que o imperador Augusto cultivava, segundo Suetónio: festina lente, "apressa-te devagar", sem nunca parar de escrever. É tudo? Não, faltava ainda a imaginação. A mesma que vemos nos seus livros e que usou para surpreender quem com ele conviveu nestes dias. Em ano de crise, o ambiente nas Correntes foi de festa. À grande arte de Rubem Fonseca ninguém ficou indiferente.

Texto (que já segue o novo Acordo Ortográfico) publicado hoje na revista Visão, na secção Noites Passadas.

No comments:

Post a Comment