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Friday, April 1, 2011

Sugestões de leitura para Abril

Viagem ao centro da América


Nem todos os livros conseguem esse feito extraordinário que é ser citado, comentado, criticado e sugerido antes de ser lido. É o que dá ser capa da “Time” (em Agosto passado): operação de marketing mais eficaz não há. Diz a revista que Jonathan Franzen pode não ser o maior escritor da atualidade, mas é aquele que melhor descreve a sociedade norte-americana. E talvez seja verdade. Acompanhando os últimos 50 anos da história do país, “Liberdade” é uma longa e perturbante viagem ao “great american dream”, das universidade no midwestern às artimanhas empresariais no Iraque, das dúvidas existenciais às certezas que querem impor ao mundo, das crises afectivas às facadas no matrimónio, da liberdade individual à tragédia colectiva. Temas diversos que são filtrados por uma família em que nada parece bater certo. Como nos EUA.


LIBERDADE

Jonathan Franzen

Dom Quixote

25 de Abril



De um escritor que já fez aparecer em plena av. Gago Coutinho um líder mouro do sec. XI, com a missão de conquistar Lisboa, tudo se pode esperar. E a mesma fértil imaginação está na origem das histórias deste novo livro. São 10 contos divididos em quatro partes, sendo a maioria inédita e os restantes repescados de antologias ou revistas. Para aguçar a leitura diga-se que “O Homem do Turbante Verde” é o chefe de um exército com quem uns arqueólogos vão ter de negociar a sua liberdade, depois de terem sido erradamente presos.


O HOMEM DO TURBANTE VERDE

Mário de Carvalho

Caminho

25 de Abril


Como descrever um livro de Ana Teresa Pereira? Um homem e uma mulher, uma casa, muito nevoeiro, alguns fantasmas, várias obras de arte que remetem a narrativa para o mundo do cinema, do teatro, da música e das artes plásticas. É um universo único no panorama literário português e tem muito de labiríntico. É fácil entrar, mas difícil de sair. E no seu interior é possível encontrar múltiplos sentidos. Tudo isto, recorde-se, em doses regulares, já que a escritora mantém o seu ritmo de publicação anual.


A PANTERA

Ana Teresa Pereira

Relógio d’Água

28 de Abril



Nick Cave é mais um daqueles casos em que tanto talento junto chateia. Além de ser um grande letrista e cantor, é também um escritor de invejável expressividade. Claro que a sua escrita, como a sua música, não está ao serviço da ideia de perfeição. Se leu a “Poética”, de Aristóteles, foi para perceber o que não fazer. Veja-se “E o burro viu o anjo”, o seu primeiro livro, agora re-editado. À semelhança de “A Morte de Bunny Munro”, esta é uma peregrinação pela América profunda, feita de luz e de muita escuridão.


E O BURRO VIU O ANJO

Nick Cave

Objetiva

4 de Abril



Habituado a escrever policiais, não foi com dificuldade que o cubano Leonardo Padura se lançou naquele que é um dos maiores projectos da sua carreira literária: traçar a biografia de Tróski e do seu assassino, Ramón Mercader. Este último é o homem que gostava de cães do título, que o narrador, um homem com ambições literárias, conheceu numa praia. Juntos recordam as grandes revoluções e convulsões do século XX, desde a ascensão do comunismo à caça ao homem que Estaline ordenou para tirar Tróski do mapa.


O HOMEM QUE GOSTAVA DE CÃES

Leonardo Padura

Porto Editora

4 de Abril


As suas obras sempre resistiram a classificações e a rótulos que as reduzissem a um único género. E estas “Prosas Apátridas” são o melhor exemplo dessa fusão literária. Não são poemas, nem ficções, nem ideias para mais tarde desenvolver. São, isso sim, testemunhos de um escritor atento ao mundo em que viveu, do Peru onde nasceu, em 1929, até à Europa que o recebeu, no início da década de 50. Aqui, Júlio Ramón Ribeyro assina um livro sem pátria e, por isso mesmo, universal.


PROSAS APÁTRIDAS

Júlio Ramón Ribeyro

Ahab

28 de Abril



“Não é possível provar que Deus não existe, mas a Ciência faz com que Ele seja desnecessário”. Eis o argumento central do novo ensaio de Stephen Hawking (com a colaboração de Leonard Mlodinow) e que tanta polémica tem gerado em vários pontos do mundo onde o Criacionismo ainda é considerado uma fidedigna explicação do universo. Revendo mais de 40 anos de investigação e a obra de vários cientistas, Hawking regressa ao seu campo de batalha preferido: as relações (e conflitos) entre a religião e a ciência.


O GRANDE DESÍGNIO

Stephen Hawking e Leonard Mlodinow

Gradiva

18 de Abril


Texto publicado no Jornal i, a 29 de Março de 2011.

Tuesday, March 15, 2011

Os limites do amor

De um lado, o presente, do outro, o passado. De outrora, a paixão avassaladora entre Robert e Elizabeth Barrett Browning. De agora, o encontro entre dois investigadores, inesperadamente disponíveis para amar. Assim se tece a malha do primeiro romance de Maria João Martins, 43 anos, que é lançado hoje, às 18 e 30, na Fnac Chiado, e que não é alheio à sua profissão de jornalista, no Diário de Lisboa, no Sete e há mais de 20 anos no JL. Na sua escrita está impregnado o vício das perguntas e nesta história de dois tempos interessou-lhe perceber até onde estamos dispostos a viver um amor ou qual o limite da nossa entrega ao outro. À semelhança da novela Escola de Validos, que lançou em 2007, ou dos ensaios O Paraíso Triste e Divas, Santas e Demónios, Como o Ar Que Respiras (Porto Editora) é uma indagação da vida e da liberdade individual.

Jornal de Letras: Este romance é o resultado do seu interesse pela relação amorosa e literária entre Robert e Elizabeth Barrett Browning?
Maria João Martins: Em parte, sim. O caráter absolutamente extraordinário desta história (verídica) de amor e literatura atingiu-me em plena adolescência, a idade em que estamos mais disponíveis para acreditar na força transformadora da paixão. Havia lá em casa um livro das Seleções do Reader’s Digest que compilava várias biografias célebres e, entre a Madame Curie e Winston Churchill, lá estavam os Browning. Deixei de ler compilações dessas mas nunca esqueci a paixão nascida da própria luz irradiada pelas palavras de um e de outro. Quando decidi escrever um romance de amor (depois de ter escrito uma novela sobre o poder e o desamor, Escola de Validos, editada pela Teorema de 2007), os Browning e a sua belíssima produção literária ressurgiram naturalmente.

Foi essa paixão avassaladora que a conduziu na história de Angie e Gabriel?
Como jornalista, tenho o vício das perguntas. O que me conduziu na história de Angie e Gabriel, o casal deste romance que vive na atualidade, foi, antes de mais, a necessidade de perguntar a mim mesma e aos leitores se ainda seremos capazes de viver até ao limite um amor desta dimensão, em que a entrega ao outro é incondicional e irreversível.

Este parece também ser um romance sobre a liberdade pessoal. Concorda?
Sem dúvida. A Elizabeth B. Browning o amor de Robert trouxe também a libertação face a uma realidade familiar patologicamente opressiva, mesmo para o modelo de sociedade vitoriana. O que resta saber (e essa é outra das questões levantadas pelo romance) é se na nossa sociedade, tão livre na aparência, o amor pode desempenhar algum papel na libertação do indivíduo.

É possível encontrar paralelos entre a época vitoriana e a atualidade, os dois tempos do romance?
George Steiner tem um ensaio brilhante sobre as diferenças entre a nossa época e a dos vitorianos e John Fowles dedicou ao tema um romance brilhante: A Amante do Tenente Francês. Creio que nos opõe aos vitorianos uma outra forma de viver o tempo, muito mais acelerada, que condiciona o pensar e o sentir (e segundo Steiner nos torna muito mais dispersivos e incapazes de obras de grande dimensão). Mas também creio que, em matéria de amores, continuamos a ser os herdeiros do modelo romântico oitocentista, com os seus dramas de dimensão operática. Somos nostálgicos de um absoluto que tende a fugir-nos.

E entre a personagem principal e a autora?
Há de comum todo um imaginário de geração. Cresci nos anos 80, a ver séries de televisão inglesas (A Família Bellamy, Reviver o Passado em Brideshead, Amor em Clima Frio ou coisas bem mais cómicas como Fawlty Towers), a ouvir música anglo-americana (amplamente referida no livro), a ler livros de autores britânicos como as irmãs Brontë, Thomas Hardy ou Somerset Maugham. Era a janela possível para uma adolescência remediada, nos arredores de Lisboa, em plena época do governo Bloco Central.

Depois da Lisboa do Padre António Vieira, a Londres do romantismo inglês. História e ficção cruzam-se na sua escrita?
História, Jornalismo, Geografia, os filmes que vejo, as viagens que faço. De tudo isso se vai fazendo as histórias que escrevo.

Entrevista (que respeita o novo acordo ortográfico) publicada no JL 1052, de 26 de Janeiro de 2011.

Como o ar que respiras

Como o ar que respiras, o primeiro romance de Maria João Martins, jornalista do JL, é lançado hoje, terça-feira, 15, às 18 e 30, na Fnac do Chiado, em Lisboa. A apresentação está a cargo de Helena Vasconcelos.

Friday, March 11, 2011

Última Paragem, Massamá

Última Paragem, Massamá, o primeiro romance do Pedro Vieira, também conhecido por irmão lúcia, homem de muitos ofícios, entre ilustração, escrita, jornalismo e guionismo, é lançado hoje, sexta-feira, 11, às 22 horas, no Frágil, no Bairro Alto, em Lisboa. A apresentação do livro, editado pela Quetzal, estará a cargo de Daniel Oliveira.

Monday, March 7, 2011

Coleção Judaica na Cotovia


Quando, passados 15 anos sobre o fim da II Guerra Mundial, Primo Levi realizou um conjunto de visitas a escolas, um facto começou a atormentar-lhe o espírito: os jovens do seu país já não sabiam o que tinha acontecido no Holocausto, nos campos de concentração e na perseguição aos judeus durante a ditadura nazi. Na altura, numa célebre entrevista, o escritor italiano defendeu O Dever de Memória, que caberia não só às testemunhas desse conflito mundial, mas também às gerações vindouras. É com o mesmo espírito que a Cotovia abre agora uma nova colecção dedicada à história e à cultura dos judeus, intitulada Judaica e com apresentação pública no próximo dia 12 de Março, no clube ferroviário, em Lisboa. “Sinto que é necessário recordar sempre os grandes crimes contra a humanidade. Todos. Esta colecção vem daí, dessa minha necessidade tornada convicção”, afirma o editor André Jorge. E acrescenta: “Não creio que haja anti-semitismo em Portugal. Ou esse tipo de fanatismos . Ou, melhor, há, quando hoje se fala contra os árabes. E há resquícios de anti-semitismo na língua (fazer judiarias, ser somítico, essas coisas). Mas há nitidamente necessidade de discussão, de reflexão séria. Espero que esta colecção contribua para isso.”
O livro com a entrevista de Primo Levi é precisamente um dos seis primeiros a sair, num conjunto que pretendeu sublinhar, desde o início, a pluralidade de pontos de vista da coleção. “Não vamos tomar partido. Pelo contrário, queremos mostrar que mesmo dentro do judaísmo sempre houve várias correntes”, adianta André Jorge. “E a discussão refletida faz-nos muita falta. É ela que abre horizontes. Ouvir vários lados, tomar posição ou não, mas tentar compreender. É esse o caminho para a tolerância”.
Desta forma, o autor de Se Isto É Um Homem, em que narra os 10 meses que passou em Auschwitz-Birkenau, surge ao lado de outros com perspetivas muito diferentes. É o caso de Karl Marx e da sua tese Sobre a Questão Judaica.
Neste conjunto inicial, alguns volumes também têm como objetivo apresentar as grandes linhas de força do património dos judeus. Judaísmo para todos, de Bernardo Sorj, e Judaísmo - Dispersão e Unidade, de Moacyr Scliar, servem esse propósito, ao mesmo tempo que destacam os estudos sobre este tema assinados por investigadores de língua portuguesa. “Com o fascínio muito particular que tenho pelo Brasil e pelas suas gentes, incluí vários autores brasileiros de origem judaica que nos explicam o judaísmo em sentido lato e não centrado na perseguição dos judeus”, explica o editor da Cotovia. Os dois últimos lançamentos são também de brasileiros e apresentam aspetos mais específicos. Entre Árabes e Judeus, de Helena Salem, foi escrito em 1973, durante os conflitos que opuseram egípcios, sírios e israelitas. “ A Helena era uma jovem jornalista brasileira quando escreveu este livro. Estava no Egito aquando do início da guerra do Ion Kipur e acabou por cobrir, como repórter, essa guerra, de um lado e do outro, apesar da sua condição de judia. Porém, o seu apelido, por ser comum entre árabes e judeus, permitiu-lhe circular entre os dois lados”, descreve André Jorge. “É um texto importantíssimo e que ganha agora mais atualidade pelas notícias que nos chegam daquela região”. Os Cristãos-Novos em Portugal no Sec. XX, de Samuel Schwarz, como o próprio nome indica, conta as vivências dos judeus obrigados à conversão, em particular na região de Belmonte.
Foi na casa paterna que André Jorge se deparou em primeiro lugar com a cultura judaica. “Não me recordo quando começou o meu interesse , mas era muito pequeno, com certeza. Talvez venha da admiração que o meu pai tinha pelos judeus”, revela. Hoje garante ser um “ateu convicto”, mas essa semente familiar deu muitos frutos, muitas leituras, uma curiosidade imensa, que agora se espelha nesta coleção. Para o futuro, estão previstos mais volumes, incluindo uma antologia de texto sobre o Holocausto e um “precioso livrinho de Bensaúde Amzalac que, em 1930, teve uma edição de 300 exemplares: são as orações de Israel escritas em português, para serem lidas em português”.
A Judaica marca também o início do relançamento da editora, depois de dois anos de pouca atividade. Além da Judaica, serão inauguradas mais duas coleções, uma de literatura universal, a outra de policiais.

Texto publicado no JL 1054, de 9 de Fevereiro de 2011.

Saturday, March 5, 2011

Jornal i


É com muito gosto que a partir de hoje passo a assinar uma coluna sobre livros na edição de fim-de-semana do Jornal i. Ponto Ómega, de Don DeLillo, O Dois Amigos, de Kirmen Uribe, e O Rei Faz Vénia e Mata, de Herta Müller, foram os títulos escolhidos para a primeira colaboração. Mais um espaço para dar testemunho da minha paixão pela leitura. Porque num instante tudo muda. Basta abrir um livro.

Thursday, November 25, 2010

Livros e corridas

Quem gosta de livros e de corridas não pode perder a aula gratuita que Christopher McDougall vai dar no próximo sábado, 27, no Estádio do Jamor, em Oeiras. Entre vários assuntos, o autor de Nascidos Para Correr, uma edição da Caderno, abordará a técnica secreta dos índios Tarahumara, conhecidos pela facilidade com que percorrem grandes distâncias. Também não faltarão dicas para evitar lesões e outros problemas musculares. O encontro é às 10 horas, junto à pista de actividades náuticas.

Tuesday, November 23, 2010

Diário inédito de José Gomes Ferreira

A Dom Quixote vai lançar, na próxima semana, o quinto volume do Diário de José Gomes Ferreira, inédito até à data. Este tomo reúne texto escritos entre 1 de Junho e 22 de Setembro de 1968. Com o subtítulo Dias Comuns V - Continuação do Sol, dá sequência aos quatro anteriores volumes: Dias Comuns I - Passos Efémeros, Dias Comuns II - A Idade do Malogro, Dias Comuns III - Ponte Inquieta e Dias Comuns IV - Laboratório de Cinzas.

Monday, November 22, 2010

Reler Sophia

Chega esta semana às livrarias a nova edição da poesia de Sophia de Mello Breyner Andressen. Depois de publicar em três tomos e em livros individuais, a Caminho optou agora por um único volume, que será também o mais completo.

Segundo o comunicado de imprensa, «a presente edição segue e actualiza os critérios de fixação de texto adoptados na série das edições 'revistas'. Publica-se igualmente, neste volume, um conjunto de poemas dispersos em revistas, em livros colectivos, em jornais e num cartaz, desde textos que remontam à primeira fase da produção de Sophia, dos anos 1940, até aos últimos poemas escritos em 2001. Alguns destes textos já foram dados a conhecer na antologia Mar, a partir da 5.ª edição, saída em 2004.» A organização, edição e fixação de texto é de Carlos Mendes de Sousa.

Para mais tarde ficou «um número considerável de poemas inéditos, que integram o espólio da autora, e que aguardam publicação em futura edição crítica».

Monday, October 25, 2010

Romance Sujo, de João Urbano


Booktrailer de Romance Sujo, a estreia literária de João Urbano, fundador e editor da revista Nada. É também o primeiro livro de uma nova editora: a Ur. O lançamento é dia 2 de Novembro, às 21, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Apresentação de Jorge Leandro Rosa e António Silva.

Tuesday, October 12, 2010

Livro do ano

Ainda é cedo para falar dos melhores livros de 2010? Talvez, mas não tenho dúvidas que o novo romance (romance?) de Gonçalo M. Tavares será um deles. Já o devorei e posso garantir que é uma leitura inesquecível. Uma experiência. E um assombro. Com edição da Caminho e prefácio de Eduardo Lourenço, Uma Viagem à Índia revisita a grande epopeia portuguesa e do Ocidente, questionando a possibilidade de realizar semelhantes feitos em plena melancolia do século XXI. Chega às livrarias no próximo dia 22 de Outubro.

Boris Vian: Sinta quem lê

Engenheiro, cantautor, trompetista, jazzista, poeta, romancista, contista, anarquista, surrealista e patafísico. Eis como poderíamos compor o extenso bilhete de identidade de Boris Vian. Atacado desde cedo por uma saúde frágil, nunca deixou no entanto de aproveitar a vida até ao limite, durante a boémia parisiense do pós-guerra, da qual é um dos maiores símbolos. A sua obra literária espelha essa postura, que não poucas vezes lhe valeu o epíteto de escritor maldito. Foi até acusado de atentado à moral pública, quando se descobriu que Vernon Sullivan, o autor de Irei Cuspir-vos nos Túmulos, era afinal um pseudónimo. Não espanta por isso que Boris Vian seja também autor destes Escritos Pornográficos que agora chegam a Portugal, numa edição ilustrada por Pedro Vieira.
Nestes poemas e contos, é a rima solta e engenhosa, tão presente na sua poesia e nas suas canções, que encontramos. Eram famosos os improvisos noturnos de Boris Vian, no Hot Club de França, no cabaré Milrod l’Arssouille ou em casa de amigos, e muitas destas composições líricas e libidinosas nasceram aí. Talvez por isso, a qualidade seja desigual, quer como poemas, quer como criações pornográfica. Liberdade (a partir de uma poema de Paul Eluard), Durante o Congresso e As Fufas são breves cantilenas, em que o sujeito poético oscila entre o concreto e o indefinido, a dúvida e a certeza, o entusiasmo e a repulsa. Já os outros dois poemas, A Marcha do Pepino e A Missa em João Menor, são bons exemplos da ironia de Boris Vian e do seu ataque sem tréguas a qualquer instituição. Por último, Drencula – Excerto do Diário de David Benson revisita a mitologia dos condes da Transilvânia, num cómico delírio sexual.
Não se pense, contudo, que estes poemas e contos fazem do autor de A Espuma dos Dias ou O Arranca Corações um entusiasta da pornografia. Isso mesmo admitia o seu compagnon de route Noël Arnaud, que em 1980 assinava o prefácio a estes escritos. “É preciso admiti-lo: Boris Vian apreciava pouco a pornografia, não molhava nela a sua pena e via nesse género sobretudo um exercício literário como outro qualquer que preferia deixar para os especialistas, incluindo alguns grandes autores”. E acrescentava: “Era-lhe, de tempos a tempos, uma oportunidade para se divertir ou para pagar uma aposta”. Ideia que sai reforçada depois da leitura de Utilidade de uma literatura Pornográfica, que abre este volume. Trata-se de uma conferência em que Boris Vian desconstrói alguns autores (como Sade ou Henry Miller) e definições da pornografia, para lhe opor apenas uma: “É perigoso acreditar que um livro possa influenciar um leitor… Se assim fosse, não haveria ninguém à face da terra desde a história do primeiro crime.” Por isso formula o escritor a seguinte evidência: “Não há literatura erótica senão no espírito do erotómano”. Daí que qualquer texto possa ser incluído nessa categoria, pois como defende Fernando Pessoa, no famoso poema Isto: “Sentir? Sinta quem lê!” E toda a leitura é sempre poliformicamente sensual.

In JL n.º 1044, de 6 de Outubro de 2010