O III Encontro Livreiro é já no próximo domingo, 25, às 15 horas, na Livraria Culsete, em Setúbal. Lá estarei para reencontrar amigos, falar sobre livros, leitores e livreiros, ver o Sado, beber Moscatel, comer Choco-frito e o que demais o dia me oferecer. Às vezes, é bom regressar aos sítios em que fomos felizes.
Friday, March 23, 2012
FLM: A alegria de crescer
“O importante não é tanto a originalidade, mas que não se deixe de escrever”. Esta foi uma das últimas frases (neste caso de Francisco Fernandes) que se ouviu na 2.ª edição do Festival Literário da Madeira, que decorreu no Funchal entre os dias 15 e 18. E parafraseá-la poderá ser a melhor forma de descrever esta iniciativa dos Booktailors - Consultores Editoriais e da editora Nova Delphi que juntou na ilha 23 escritores de várias nacionalidades: “O importante não é tanto a originalidade, mas que não se deixe de fazer festivais como este”.
Usando o modelo das Correntes d’Escritas, da Póvoa de Varzim, este encontro tem sabido criar uma marca própria, fazendo uso das potencialidades da Madeira. Estão lá, como nas Correntes, as mesas redondas, as visitas às escolas, os lançamentos de livros e as sessões de poesia. Mas também há uma forte ligação à Universidade da Madeira (o seu reitor foi um dos moderadores e outros professores também estiveram presentes), o confronto com uma região (de maiores dimensões) em que se cruzam várias referências culturais, devido aos fluxos migratórios, e há ainda um estimulante diálogo entre uma comunidade literária madeirense muito ativa e os convidados do continente. A par de Francisco Fernandes, Graça Alves, João Carlos Abreu, José Castanheira da Costa, Paulo Sérgio BEJu e Rui Nepomuceno, que participaram nas sessões, na plateia foram vistos muitos outros escritores madeirenses, como Ana Teresa Pereira ou Teresa Jardim. Num mundo em que tudo parece reinventado (ideia muito discutida no encontro), este Festival aposta tudo na reinvenção. E com bons resultados. Para o ano, a organização, cujos rostos principais são Paulo Ferreira e Francesco Valentini, promete mais escritores, mais autores, mais dias de atividades, debates e visitas a escolas. Talvez assim se perceba por que razão quiseram, este ano, “troikar as voltas à crise”. O lema parece ser, contra a austeridade, marchar, marchar. Com Literatura.
À semelhança da 1.ª edição, o Festival teve um tema único - o verso de Fernando Pessoa “Éramos felizes e não sabíamos” - que depois se desdobrou em quatro variantes: éramos poors, violentos, piegas e originais. Das intervenções sobressaiu o papel que o escritor/intelectual poderá ter num período de crise como o que o atravessamos (além de livros e escritas, falou-se muito da atual conjuntura económica). “O escritor deve procurar acima de tudo a beleza formal, tratar bem a língua, mas se conseguir ao mesmo tempo dar um contributo para mudar a sociedade cumprirá ainda melhor a sua função”, afirmou Rui Nepomuceno.
Isso pode passar, sugeriu Júlio Magalhães, falando da sua experiência como jornalista, por uma nova relação com o espaço público. “A televisão domina as pessoas, mas são as pessoas que têm de a dominar. E a literatura tem andado muito afastada do ecrã”, defendeu o escritor e diretor do Porto canal. “É preciso que os escritores estejam disponíveis e saibam usar a televisão”. Na afirmação de um discurso alternativo à ditadura dos números e ao jogo político, o escritor tem a possibilidade de lançar novos olhares sobre o mundo. E de colocar perguntas. Para o chinês Yang Lian, é essa a missão do poeta e, para ilustrar a ideia, lembrou um autor clássico do seu país que num dos seus poemas enumerava justamente 200 perguntas. Na procura de respostas está o início da mudança.
Uma das novidades deste ano foi a institucionalização de uma conferência de abertura. A estreia coube a Inês Pedrosa, com uma extraordinária intervenção sobre o universo de Agustina Bessa-Luís, intitulada A Ilha Secreta de Agustina. A diretora da Casa Fernando Pessoa citou passagens dos seus livros e entrevistas, lembrou dados biográficos e traços de personalidade, analisou as suas frases e aforismos e isolou as linhas fortes da sua escrita torrencial, numa completa viagem pelos romances e contos da autora de A Corte do Norte, romance cuja ação se passa precisamente na Madeira. “Os livros de Agustina exigem alma, mas não pergaminhos académicos”, afirmou a escritora, em jeito de introdução. “São difíceis, mas podem usar-se como missais inquietantes”. Num texto que o JL publicará numa das suas próximas edições, Inês Pedrosa focou ainda o estilo de Agustina - “de livro para livro a mão torna-se mais leve” - e os temas que privilegiou nas obras, concluindo: “Um ensaio potente sobre Portugal e os portugueses. Uma reflexão lúcida sobre as motivações profundas e as escolhas políticas da Humanidade, pois é sempre de relações humanas que nos fala, do desespero e da alegria do mundo”.
Um arranque sonante que, dada a adesão do público, a qualidade da organização, a versatilidade dos temas, se transformou na nota dominante do encontro. E citando ainda Inês Pedrosa, pode dizer-se que “no Festival Literário da Madeira ouve-se falar em crescer e sonhar e ir mais longe. E isso é muito bom”.
Texto publicado no JL 1082, de 21 de Março de 2012
O Porto visto por Nadir Afonso
Duas vistas do Porto, a Foz, em cima, e o Douro, em baixo, na última exposição de Nadir Afonso, EXACTIDãO, que também passa por Abu Dabi, Bizâncio, Detroit, Brooklin e Luanda, entre outras geografias territoriais e afectivas. Para ver na Galeria São Mamede, no Porto, até dia 26 de Abril.
A experiência sublimada de Alexandra Lucas Coelho
Experiência e memória são as palavras que mais
lerá nesta entrevista. E não por descuido na passagem da conversa para o texto.
É que, para Alexandra Lucas Coelho, 44 anos, essas são as ferramentas centrais
da sua escrita. Quer no jornalismo, que pratica há mais de duas décadas, neste
momento como correspondente do Público no Brasil, quer na Literatura, onde agora se estreia, com o romance E a Noite Roda, uma edição
da Tinta-da-China
No tempo dos faraós, os egípcios
acreditavam que citar um nome de um morto era fazê-lo viver eternamente. A
noção que Alexandra Lucas Coelho (ALC) tem da escrita não anda muito longe
desta sabedoria antiga. Para si, escrever é acionar uma matéria informe e morta
que, uma vez resgatada, desperta para uma nova vida. “A única forma de voltar
[a uma experiência] é escrever para que exista”, afirma a narradora do seu
primeiro romance, E a Noite Roda (248 pp, 16,20 euros), que é lançado hoje,
quarta-feira, 7, a partir das 22, no Bar do Teatro A Barraca, numa conversa com
Gonçalo M. Tavares. “Quando é que o real se torna real?” questiona-se, na mesma
linha, ALC, nesta entrevista. “Quando acontece ou é contado?”.
Este primeiro romance é, assim, uma forma de perceber
como se pode captar o mundo que nos rodeia, aqui sem os constrangimentos do
jornalismo, a sua profissão e escola de escrita. À sua semelhança, a narradora
deste livro, Ana Blau, é jornalista, enviada especial ao Médio Oriente, mulher
que se habituou a cruzar fronteiras e a ver a cidade onde nasceu com os olhos
da novidade. Um dia apaixona-se por outro correspondente, León, o que a levará
a uma incerta aventura amorosa. “Ela sou eu mas depois já não é”, afirma ALC,
apresentando as regras desta história. No jogo da literatura, é a liberdade
quem mais ordena. Transfigurando a memória, sublimando o real, recosendo as
linhas da sua experiência.
Este livro começa
com uma evocação de Gilgamesh. Qual o seu significado?
Marcar,
desde o início, a passagem de uma fronteira. Gilgamesh é a nossa narrativa
primordial, o primeiro de todos nós, como se diz no livro. Ao nomeá-lo, a
narradora imita aquelas pessoas que ao entrar num templo ou terreiro evocam o
espírito que lhe preside. A narradora convoca o passado para ter consciência do
que está para trás e sublinhar que o território que vai pi sar
é o da literatura, das histórias que se contam. Se virmos os meus livros como
um percurso, este prólogo é o momento em que eu assinalo a passagem dessa
fronteira.
A que separa o jornalismo da ficção?
Sim, embora considere “ficção”
uma palavra vazia, prefiro “romance”. O romance enquanto buraco negro que atrai
memórias, experiências e todo o tipo de matérias que depois são usadas como um
barro. O jornalismo é uma forma extraordinária de captar a realidade (que é o
que na verdade me interessa), mas tem algumas limitações, próprias do exercício
da profissão. Neste momento, quero tentar uma escrita que não tenha esses
constrangimentos.
Foi esta história que exigiu essa nova
escrita ou era uma vontade antiga?
Uma vontade. Mas quando digo
que se trata de avançar para outra etapa não significa um corte radical com o
que fiz para trás. Daí o aproveitamento de técnicas do jornalismo. Tudo pode
confluir para o romance, pois é um espaço inteiramente livre. Em E a Noite
Roda
eu emprestei à narradora, a Ana Blau, as minhas próprias circunstâncias. Fui
correspondente em Jerusalém, fiz muitas das reportagens que ela envia para o
seu jornal e a relação que ela tem com certos lugares é também a que eu tenho.
Acima de tudo, queria lidar com materiais da minha experiência e memória de uma
forma completamente diferente da que fiz como jornalista. E se as pessoas já
puderam ver parte dessa aproximação ao real (nos trabalhos para o Público), agora vou tentar
mostrar a outra.
Como se usasse duas lentes, uma
jornalística e outra literária?
Sim. Mesmo agora no Brasil,
sinto que há um tempo para observar e escrever no imediato e outro para
observar e escrever mais tarde. É pegar numa matéria-prima que num determinado
momento foi tratada a quente e abordá-la agora de uma outra forma. E com uma
liberdade inteiramente nova para mim. Fazer com as minhas memórias o que eu
quiser, transfigurando o material factual. Nesse sentido, Ana Blau confunde-se
comigo e isso é deliberado. Ela sou eu mas depois já não é.
São muitos os exemplos de escritores
que escrevem sobre sítios que nunca conheceram. Isso nunca acontecerá consigo?
Não descarto essa
possibilidade. Não faria sentido agora que estou a entrar num território de
total liberdade. Além disso, eu estive em todos os lugares que são referidos no
livro, mas não necessariamente naquelas alturas, estações do ano ou
circunstâncias. Entre os dois caminhos que se costuma traçar, um borgiano, da
imaginação e da fantasia, e outro proustiano, da experiência e da memória, o
meu será sempre o segundo.
O que a interessa nesse campo da
memória e da experiência?
Perceber o que é real, quando
se torna real, quando acontece ou é contado? Claro que a forma de chegar a essa
verdade não passa por contar as coisas como ou no momento em que se realizaram.
Se calhar conseguiremos transmitir com mais vivacidade essa realidade
retocando-a e transfigurando-a. Nesse sentido, este livro é também um jogo que
proponho ao leitor.
Ao usar a lente da ficção, o seu olhar
sobre o Médio Oriente mudou?
Só no sentido em que o ponto de vista é o da
intimidade, dos bastidores, e não do palco. O próprio movimento do livro vai do
plano geral para o grande plano, de dentro para fora, da paisagem para o
quarto. Por isso, não é que tenha descoberto um outro olhar sobre o Médio
Oriente. Apenas tentei regressar a uma cidade (Jerusalém) central na minha vida
e lidar com outras dimensões dessa experiência. E contar uma história.
Uma história de amor?
Não diria amor, antes paixão ou
desejo de paixão ou até desejo de aventura, dependendo do ponto de vista.
Interessou-me explorar esse tema, que é tanto meu como de muitas outras
pessoas, e perceber o seu fracasso, a sua angústia, o seu vazio, a sua
irrealidade. Entender também até que ponto essa paixão é gerada e
impossibilitada pelo exterior, se é ou não fabricada e afetada pelo contexto.
Esta paixão não seria possível noutro contexto?
Eis a questão. Talvez não. A
paisagem, aqui, mais do que um pano de fundo é também uma personagem. Esta
história existe porque as circunstâncias da Ana e do Leon são aquelas, naquele
lugar, com uma intensidade específica que gera uma aproximação e uma vontade.
Quando se retira a paisagem, descobre-se que não há nada debaixo dos pés.
A relação entre Ana e Leon é
idealizada mas também muito física...
Esse é outro campo que me interessa
particularmente. A relação sexual pode ser um revelador, como na fotografia,
das próprias personagens, dos seus avanços e recuos, das suas limitações. É um
território muito rico, que lida com o que é mais nosso. É como se, ao entrar na
literatura, estivesse a iniciar um caminho para dentro, depois de ter feito um
para fora, como jornalista. E todos estes temas são da mesma ordem. Quero descobrir
como se pode lidar com a memória e a experiência de uma paisagem, de uma
cidade, de um lugar e de duas pessoas numa cama. No livro, cito um poema de
John Berger que fala precisamente disto: “Maravilhoso o vento de primavera para
os/ marinheiros que anseiam partir/ E mais maravilhoso ainda o lençol que cobre
dois/ amantes numa cama”. É isso que procuro: o marinheiro que está à espera
que o vento sopre nas suas velas e a intimidade de duas pessoas. É também uma
tentativa de tornar a leitura uma experiência sensorial.
Em que sentido?
Dar a ver, como no jornalismo,
mas também dar a ouvir e a sentir. E se a ambição é conseguir tocar o real,
nada é mais desafiador do que dois corpos no afã de provarem que estão vivos.
Estas personagens podem vir a aparecer num novo romance?
Em relação à Ana, não. Penso
que ficou por aqui. O Karim, personagem que apenas é nomeado, vai aparecer no
próximo romance. Gosto da ideia de uma ligação entre livros e não descarto a
possibilidade de Leon regressar, ele que nunca chega a falar neste romance.
A escrita deste romance foi muito
diferente da dos outros livros?
Não teve nada a ver. Foi muito
morosa, enquanto a escrita dos anteriores foi rápi da
e contínua. Mas cada um resultou de um processo diferente, até porque não me
interessa repetir fórmulas. Não me vejo, por exemplo, a fazer mais um livro de
viagens, embora no Brasil haja vários pretextos. O Caderno Afegão partiu de um diário e
foi escrito muito tempo depois de ter regressado. O Viva México foi um livro rápi do, colado ao momento e concluído em dois meses.
Este romance é uma história contada por uma mulher e apenas conhecemos a sua
versão. Para mim não era importante construir uma trama tradicional ou
desenvolver as personagens secundárias. O próximo livro, no entanto, será
diferente, polifónico, e passado no Brasil.
Está lá há ano e meio. Como tem sido
essa experiência?
O Brasil é neste momento o centro do mundo. Toda a
gente está a olhar para aquele país contraditório e complexo. E o símbolo dessa
grande transformação é o Rio de Janeiro, uma cidade oposta à minha natureza. Ao
contrário de Buenos Aires, por exemplo, mais melancólica, o Rio é voltado para
fora. Raramente nos deixa pousar os olhos e a cabeça.
Porquê?
Aos nossos olhos, a cidade está
sempre a mudar. A topografia é tão extravagante que sempre que se muda de
direção, se entra ou sai de um morro, se observa de sul ou de norte, tudo
parece novo e mudado. E o meu Rio não é o das praias ou do Leblon. Moro no meio
da floresta, no Cosme Velho, o bairro onde viveu Machado de Assis.
O Brasil novo que está a parecer é sustentável?
É uma das grandes interrogações
que se colocam neste momento. Será que o Brasil vai se tornar um país
desenvolvido e, ao mesmo tempo, manter as produções de monocultura que estão a
destruir a Amazónia? E vai crescer à custa de milhões de pobres ou vai
proporcionar-lhes cuidados de saúde e uma educação que nunca tiveram?
Esse é um debate público?
É um debate que às vezes
aparece nas margens, poucas vezes no centro. Não sei dizer para onde vai o
Brasil, agora que ele surge como contraponto a um mundo em crise. Há uma enorme
explosão de emprego e importação de quadros - toda a gente quer ir viver para o
Rio. O que o Brasil tem de dizer ao mundo é se consegue encontrar um modelo alternativo
com o qual a Europa e os EUA possam aprender qualquer coisa. O que pode
resultar do cruzamento de várias heranças raciais e sociais?
De que forma essa experiência vai ser passada para o romance que está a escrever?
A ambição é tocar neste momento
único da história do Brasil e projetá-lo no interior das personagens. Será
centrado no Rio, embora absorva experiências de outras regiões brasileiras e
não só.
E terá ecos do português que se fala no Brasil?
Lidar com uma língua que
é minha mas ao mesmo tempo não é foi um dos motivos que me levou a ir para o
Brasil. E não tenho ideias muito definidas sobre isso. Falamos uma língua que
está a ser constantemente alargada e moldada por 190 milhões de pessoas que
vivem num país gigantesco. É fascinante, mesmo se no futuro der origem a uma
outra língua. E interessa expor-me a esse atravessamento. Como não sou uma
patrioteira nacionalista não tenho qualquer problema com isso. Não vou perder a
minha identidade, nem o meu sotaque.
Entrevista publicada no JL 1081, de 7 de Março de 2012
Francesco Valentini
Na reportagem sobre o Festival Literário da Madeira, publicada no JL 1082, da passada quarta-feira, um dos organizadores está mal identificado. Na verdade, o seu nome é Francesco Valentini, director da editora Nova Delphi. Ao Francesco, a toda a equipa do festival e aos leitores, as devidas desculpas pelo erro, que será corrigido na próxima edição.
Thursday, March 22, 2012
Tuesday, March 20, 2012
Monday, March 19, 2012
Um prémio para Einar Már Guðmundsson
Foto de Joana Beleza
Não é preciso um prémio de carreira, por mais importante que seja, para perceber
que toda a vida de Einar Már Guðmundsson tem sido dedicada à literatura. Quem já
teve a sorte de entrar no seu atelier, ao lado da sua casa, num bairro dos
arredores de Reykjavík, não terá deixado de ficar impressionado com os livros
que se acumulam nas estantes, o computador com marcas de muito uso, os manuscritos
em cima da mesa, os blocos cheios de rabiscos e a taça de café sempre cheia, ao
lado do termo que o mantém aquecido.
Nascido em 1954, Einar Már Guðmundsson estreou-se em 1980, com uma recolha
poética intitulada, na tradução inglesa, Is
Anyone Here Wearing The Korana Line? Esse livro inaugural ocupa hoje uma ínfima
parte das prateleiras que, no atelier, atribuiu aos seus livros e traduções. São
em número considerável e um motivo de orgulho. Conhecido em toda a Escandinávia,
Einar Már é respeitado não só pelos livros mas também pela intervenção cívica.
A título de exemplo, lembre-se que foi um dos oradores mais ativos nas
manifestações que denunciaram as fraudes financeiras dos bancos islandeses, na sequência
da bancarrota de 2008, pela qual o primeiro-ministro de então está a ser julgado e que deu origem a um empréstimo do FMI que já foi parcialmente pago. Um
escândalo que relatou em The White Book.
Mas Einar Már é também muito conhecido na Europa, sobretudo na Alemanha, Itália
e França. À sua estreia literária, seguiram-se outros dois volumes de poesia, Loneliness of the Delivery Boy e Robinson Crusoe Returns Home. Num ritmo regular
(um livro por ano ou, no máximo, de dois em dois), foi consolidando o seu nome
junto dos leitores, lançando romances, contos, livros para crianças e ainda
mais poesia. Isto até 1993, quando publicou aquele que é o seu título mais
famoso, Anjos do Universo, felizmente
publicado em Portugal, infelizmente numa edição há muito esgotada (Canguru, 2003).
É daquelas obras que fazem uma carreira, mesmo quando, ao mesmo tempo, a
reduzem a um único livro. Valeu-lhe, em 1995, o Nordic Literature Prize, conhecido
como “o pequeno Nobel” ou o “Booker Prize da Escandinávia”. Recebe-o agora pela segunda vez, pela totalidade do seu trajeto literário, algo que já tinha
acontecido a outros dois escritores islandeses: Thor Vilhjálmsson e Guðbergur
Bergsson.
Além dos prémios, Anjos do Universo,
adaptado ao cinema por Friðrik Þór Friðriksson, ocupa um lugar especial na
escrita de Einar Már. Baseado na curta vida do seu irmão, conta a história de
um conjunto de doentes mentais internados num hospício, os seus sonhos, angústias,
aventuras, desejos, inquietações, medos e pulsões. Como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ou em muitos outros
livros que pegam nessa forma literária, o narrador recorda a sua vida depois de
morto, nomeadamente os conflitos familiares, a inadaptação social e a progressiva
deriva para aquela território em que a razão dá lugar a forças que a razão desconhece.
Neste livro, há sofrimento, incompreensão e autismo, mas também uma centelha de
felicidade. E é essa capacidade de intuir nestas personagens emoções tão contrastantes que fazem de Anjos do Universo uma leitura inesquecível.
Só pelo título, de Einar Már gostava de ler o romance Epi logue of Raindrops,
mas ainda não o consegui comprar. Contento-me com a poesia que me enviou por e-mail. A mesma que aqui partilho convosco.
The Girl You Loved
Revolution is like the girl you once loved.
You thought she loved you too
and you would never love any other.
But one day she ditched you.
Your sorrow was an abyss in the void of days.
Now, much later, you see there was nothing to her
and are astonished you should ever
have fallen in love with her.
You thought she loved you too
and you would never love any other.
But one day she ditched you.
Your sorrow was an abyss in the void of days.
Now, much later, you see there was nothing to her
and are astonished you should ever
have fallen in love with her.
And yet, if the magnetism that attracted you to her
is no longer in your heart …
for the girl you loved once
is not the girl you loved
but rather the yearning,
the quest that set off with you
not to find,
but to search for what you lost
to be able to lose what you found.
is no longer in your heart …
for the girl you loved once
is not the girl you loved
but rather the yearning,
the quest that set off with you
not to find,
but to search for what you lost
to be able to lose what you found.
A Warcry From North
You who live with an island in your heart
and the vastness of space
a sidewlk beneath your soles.
Hand me the Northern Lights!
I shall dance with the youngster
who is holding the stars.
We peel the skin from the darkness
and cut the head off misery.
Robinson Crusoe Returns Home
— the taxi driver
who drove me beyond the city limits
took my football in pawn
my colouring books have been
confiscated
my darling
you make sure the bailiffs
don’t get their hands on my aquarium
you mustn’t tell on me
I know the cops are looking for me
they’ve photographed me from all sides
the evening papers are reporting that I’m wanted
you promise not to say a word,
they’re looking for me
among the gangsters in the bars
and the libraries
have already handed in all the famous five books
for fingerprinting
now they’re combing the beaches
and I just heard on the radio
that the airports have been closed.
Sunday, March 18, 2012
Saturday, March 17, 2012
E para o ano há mais
Paulo Ferreira e Francesco Valentini fazem um balanço muito positivo do festival. Agradecimentos a toda a equipa de produção, à cidade do Funchal. E para o ano há mais.
Subscribe to:
Posts (Atom)












