Thursday, March 15, 2012

Minuto a minuto: Sessão de abertura do FLM

19h03: Alguns livros da escritora estão à venda no foyer do Teatro Baltazar Dias, para que o prazer de descobrir Agustina possa ser continuado no silêncio da leitura.

19h02: Boa sessão de abertura. Sala cheia (cerca de 150 pessoas), um óptimo espaço e uma bela homenagem a Agustina Bessa-Luís.

19h02: O Festival regressa amanhã, com a primeira mesa redonda.

19h01: Fim da excelente intervenção de Inês Pedrosa. Aplausos do público.

19h01: É sem dúvida uma escritora de dimensão internacional. Pena que Portugal não tenha sabido divulgá-la em todo o mundo. Leiam-na.

19h00: António José Saraiva: Agustina é o segundo milagre do século XX português, depois de Fernando Pessoa.

18h59: Muitas das suas crónicas estão por publicar, espero que por pouco tempo.

18h57: As suas recorrentes considerações sobre a emancipação das mulheres só aparentemente são conservadoras.

18h56: Há uma alegria, uma alegria do mundo. Este é o seu dom. Maravilha e maldição que parece nascer pronta. Uma disciplina do optimismo que se lança sobre a vida. Podemos discordar dela, mas nunca saímos dos seus livros sem sermos contagiados pela sua inteligência.

18h55: Agustina sempre foi capaz de escrever sobre todos os temas e confere a todos os temas o mesmo grau de dignidade.

18h55: A sua última intervenção política, para espanto de muitos que a arrumam na prateleira da direita,  foi a favor da Interrupção Voluntária da Gravidez.

18h54: Disse muitas vezes que se não fosse escritora seria uma grande política, talvez primeira-ministra.

18h53: "Aquilo que mais gosto no Judeu é a Incerteza apaixonada", dizia Agustina.

18h53: "A vida é feita de arrumações que não são nossas", escreveu Agustina.

18h52: No mundo de Agustina, o tempo é o menor dos escultores.

18h51: Sobre um estilo que só na aparência é clássico, a autora estilhaça todas as convenções da criação de personagens e do desenvolvimento da acção.

18h49: Era consciente que os casamentos se mantêm no equilíbrio entre confiança e paixão. É preciso dedicação.

18h48: Casaram sozinhos, sem a presença dos pais dos noivos, Alberto Luís, que não eram a favor daquela precipitada relação. Viveram um amor feliz.

18h47: Aos 20 anos, decidiu tomar em mãos o seu próprio destino: pôs um anúncio no jornal pedir encontro com um homem inteligente e sensível.

18h47: E gostava também de filmes. Ocorreu-lhe casar com Orson Wells. Mas desistiu quando soube que ele tinha acabado de casar. Nunca fui de destruir casamentos, dizia.

18h46: Como todas as meninas quis ser bailarinas. Mas de cabaret.

18h45: Aceitou o catolicismo da mesma forma que aceitaria o islamismo se tivesse crescido no mundo muçulmano.

18h44: Teve sempre com Deus uma relação cautelosa.

18h43: A mãe justificou o acto com a maior fortuna da filha: a inteligência. E Agustina sempre preferiu o conquistado ao dado.

18h43: Um avô paterno deixou-lhe uma grande fortuna num testamento que a mãe rasgou.

18h41: Pai tão terno quanto distante.

18h40: Recordação da biografia da escritora. Em pequena, lia muito. Não se destacava entre as colegas que tinham melhores notas, menos em português.

18h40: Agustina parece sempre ter sabido viver dentro e fora do tempo, numa espécie de laboratório científico da alma.

18h39: Abre-se ao acaso qualquer livro de Agustina e encontramos sempre uma frase que nos toca. O génio de Agustina está na capacidade de criar instalações estética de grande arrojo.

18h38: Não é por acaso que os nossos maiores cineastas se interessam pelos seus romances. As suas personagens convocam esse poder das imagens inesquecíveis.

18h37: Um ensaio potente sobre Portugal e os portugueses. Uma reflexão lúcida sobre as motivações profundas e as escolhas políticas da humanidade. É sempre de relações humanas que nos fala. Do desespero mas também da alegria do mundo.

18h36: De livro para livro a mão foi-se tornando mais leve, a escrita mais certeira. Os seus últimos romances usam uma linguagem cada vez mais transparente e rápida, como se conhecesse um atalho para a verdade.

18h35: Agustina: uma pensadora de todas as coisas por pensar.

18h35: "Escrevo para desiludir com mérito", dizia Agustina.

18h34: "Escrevo para incomodar o máximo de pessoas com a maior inteligência".

18h34: Só os títulos já são todo um programa.

18h33: Agustina começa sobretudo por um olhar, um luminoso olhar de raio X. Que começa por uma paixão pela alma humana, com um humor libertino e uma paixão cristã.

18h32: "Desde criança que não causo uma impressão amigável", como reconhecia. Isto porque é inesquecível.

18h31: Agustina caça esse lugar de todos os lugares que é o desespero humano. O desespero maquilhado em festa. Por isso gostou tanto de frequentar festivais e festas. Não só artísticos. Recordo uma crónica sobre cardiologia. São microcosmos práticos do teatro humano.

18h30: A sua intervenção, de facto, foi sempre da ordem do milagre. Agustina não sabe escrever mal. E sabe escrever bem. Escrever bem é ter algo para dizer e saber dizê-lo com frases que se nos cravam na pele.

18h30: Agustina teve sempre uma capacidade rara de se dizer em verdade. "Eu sou uma virtuosa. Espero quando morrer poder começar a fazer milagres", dizia a Agustina.

18h29: Tudo o que Agustina não disse sobre si mesmo está nos seus livros.

18h29: A literatura é um ilha de amores e desastres, como todas as ilhas.

18h29: O que trata este livro é o sentimento insular que se instala no uso da saudade.

18h28: Celebremos do romance sobre a Madeira. Um romance feminista, talvez de forma mais clara do que em outros livros.

18h27: Fanny Owen devia ser a introdução escolar da Agustina. Os seus livros exigem alma, mas não pergaminhos académicos. São difíceis, mas podem usar-se como missais inquietantes.

18h26: A escritora amou tanto esta ilha que lhe dedicou um dos mais belos romances, A Corte do Norte.

18h26: A ilha secreta de Agustina, título da conferência.

18h25: "Camaradas de escrita. É uma expressão que devia ser recuperada".

18h24: "Aqui, no Festival Literário da Madeira, ouve-se falar em crescer e sonhar e ir mais longe. Isto é muito bom".

18h23: Conferência de Inês Pedrosa.



18h22: Fim da reportagem. Aplausos do público.

18h20: "A minha mãe tinha um gato que se punha em cima das sanefas e que atacava as pessoas de quem não gostava. Era como ter uma fera dentro de casa. Havia sempre esta relação da minha mãe com os gatos muito intensa, quase felina" (Mónica Baldaque).

18h18: "Nos inéditos, aparecem romances de uma página." (Alberto Luís).

18h15: "Vejo um papel em branco e apetece-me escrever" (Agustina Bessa-Luís)

18h14:


18h11: Projecção da reportagem de Maria João Costa e Joana Beleza, da RR, sobre O Mundo de Agustina Bessa-Luís.

18h10: Intervenção de Teresa Brasão, directora do Teatro Baltazar Dias.

18h09: A cultura é bela, é beleza, mas também riqueza económica. Quem não entende isto não é uma pessoa culta. Quero abrir este Festival celebrando a Cultural, algo onde se pode ter esperança.

18h08: Pelo contrário, o investimento deve ser nessa área. Um cidadão instruído é um garante da democracia.

18h07: Quando se diz que a única solução é cortar na cultura, no ensino, tudo segue uma direcção errada.

18h06: Na Europa, só nos resta comprar ideias, porque tudo o resto é feito noutros continentes.

18h05: O Ocidente deve desenvolver um modelo económico diferente, assente nas indústrias culturais.

18h02: Intervenção de Francesco Valentini, da organização, sobre o tema de Economia e Cultura.

18h01: A poetisa convida os presentes para a sessão de poesia amanhã à noite.

18h00: Intervenção da italiana Donatella Bisutti, poeta e ficcionista.

17h59: Agradecimentos aos 23 escritores convidados, incluindo ao "melhor escritores chinês da actualidade". Para a organização, todas as primaveras "vai vir charters de leitores". Um festival para combater a austeridade.

17h58: "Este ano, o Festival Literário da Madeira tem mais dias, mais escritores e mais visitas a escolas".

17h57: "É possível olhar para a Madeira como destino Cultural e dinamizar a economia local".

17h55: Discurso de boas-vindas por Paulo Ferreira.

17h48:


17h45: A sala começa a compor-se, depois de um compasso de espera.

17h44: Tudo a postos no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, para a Sessão de Abertura do Festival Literário da Madeira.

Na Madeira, paragem obrigatória

Nos livros e livros e livros e muitos livros da Livraria Esperança

O mundo de Agustina


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A propósito da conferência de abertura do Festival Literário da Madeira dedicada a Agustina Bessa-Luís e a cargo de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, vale a pena ver este extraordinário trabalho multimédia da Rádio Renascença em casa da autora de Sibila. Uma reportagem de Maria João Costa e Joana Beleza, que em antena passou no programa Ensaio Geral.

Festival Literário da Madeira 2012 arranca hoje



O universo de Agustina Bessa Luís é o tema da conferência de abertura do Festival Literário da Madeira, cuja segunda edição decorre a partir de hoje, quinta-feira, 15, até domingo, 18, numa organização conjunta da Booktailors - Consultores Editoriais e da editora Nova Delphi. Os romances e as referências da escritora, Prémio Camões em 2004, serão revisitados por Inês Pedrosa, a partir das 18 e 30, no Teatro Municipal Baltazar Dias, no Funchal, onde decorrerá o encontro, que reúne 23 autores portugueses, espanhóis, cubanos, italianos, norte-americanos e chineses. “Nasci adulta e morrerei criança” é o ponto de partida para esta viagem conduzida pela diretora da Casa Fernando Pessoa, com paragem obrigatória pelo romance A Corte do Norte, passado justamente na ilha da Madeira. 
Fernando Pessoa é, por sua vez, o mote para as cinco mesas redondas que se realizam nos restantes dias do Festival. É seu o verso que será glosado sobre diversas perspetivas e que surge logo na primeira mesa, a 16 de março, às 18 horas: Éramos felizes e não sabíamos. Aqui pretende-se saber “como a troika influenciou os nossos dias”, questionando até que ponto a atual conjuntura económica vai redefinir a criação literária em Portugal ou se os cortes nas finanças dos portugueses conduzirão a uma maior iliteracia. Inês Pedrosa, José Manuel Fajardo, Patrícia Reis, Pedro Vieira e Rui Nepomuceno são os escritores convocados para esta reflexão.
As mesas-redondas regressam no dia seguinte, 17. Às 10 da manhã, com Éramos poors e não sabíamos, para perceber, na companhia de Afonso Cruz, Ana Margarida Falcão, Eduardo Pitta e Júlio Magalhães, “como é que a crítica literária (não) influencia os leitores e se com pouco espaço na imprensa, com a queda de vendas dos jornais, será que os críticos ainda funcionam como agências de notação literária?”. Às 11 e 45, é a vez de Barry Wallenstein, Fernando Pinto do Amaral, Francesco Benozzo, Jaime Rocha, João Carlos Abreu e Yang Lian falarem a propósito da ideia Éramos violentos e não sabíamos, que tem o seguinte guião: Como a poesia pode mudar a nossa vida? Desaparecida das livrarias, será que a poesia ainda é o que era ou já não somos um país de poetas? Que qualidade tem a poesia no país dos poetas sem qualidades?”
Da parte da tarde, às 15 e 30, a mesa Éramos piegas e não sabíamos reúne Joel Neto, Manuela Ribeiro, Paulo Sérgio BEJu e Valter Hugo Mãe para discutirem de que forma “a lamechice influenciou a nossa literatura, se somos um povo de escritores e romances piegas, se a lamúria afadistada sempre encontrou terreno fértil na literatura ou se os nossos heróis sofrem e choram muito?” E, às 17 e 30, Francisco José Viegas, Graça Alves, José Mário Silva e Karla Suárez debruçam-se sobre os clássicos, a inovação, a reinvenção e a repetição em Éramos originais e não sabíamos.
A par destas mesas-redondas, o Festival Literário da Madeira inclui no seu programa cinco visitas às escolas da Madeira (Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, Francisco Franco, Carmo, Calheta e Gonçalves Zarco) e à sua Universidade. Na noite de 16 de Março, às 21 e 30, realiza-se, também no Teatro Baltazar Dias, uma sessão de música e poesia coordenada por Donatella Bisutti e com performances de Barry Wallenstein, Francesco Benozzo, Massimo Cavalli e Yang Lian.
“Pôr os madeirenses em contacto direto com alguns dos principais escritores nacionais e estrangeiros” é um dos objetivos principais do Festival Literário da Madeira que, num ano de dificuldades financeiras, quer “troikar as voltas à crise”. Para isso, procurará “dinamizar a economia local e evidenciar o arquipélago da Madeira como destino cultural”, ao mesmo tempo que se afirma este encontro como “uma das referências do calendário editorial português”.

Friday, March 2, 2012

Helena Vasconcelos: O despertar das mulheres


Tem um romance entre mãos (ainda no início), mas nem sempre sente o apelo da ficção. Prefere antes o prazer da leitura, do estudo e da reunião de peças que, todas juntas, compõem um puzzle, uma visão sobre a Literatura e a História. E é precisamente mais um desses trabalhos de fundo que Helena Vasconcelos nos oferece agora, divulgando as suas reflexões sobre uma temática que a acompanha há anos: o feminismo, o estudo de género, as mulheres. Humilhação e Glória é uma viagem à volta da História da Humanidade, antes contada exclusivamente pelo Homem, aqui observada pelo ponto de vista de quem lutou por conquistar os seus direitos na sociedade. Jornalista e crítica de literária, dinamizadora da Storm Magazine, Helena Vasconcelos é um das mais ativas promotoras da leitura (tem diversas comunidades de leitores no currículo), como esta coletânea de textos, editada pela Quetzal, também mostra.

Jornal de Letras: Diz que este livro é uma narrativa de aventuras. Porquê?
Helena Vasconcelos: Não queria que o livro tivesse uma carga académica, nem que se julgasse que é exaustivo. No fundo, não queria que fosse encarado como um ensaio tradicional. O meu desejo foi contar histórias, integrando-as umas nas outras e assim falar da História da Humanidade a partir da ação e do contributo das mulheres, algo que até há bem pouco tempo era descrito a partir da perspetiva masculina. E uma aventura é também a vontade de estar contra um determinado estado de coisas. Em muitos casos, foi preciso uma coragem quase heróica para desfazer o que há muito estava pre-estabelecido.

E essa aventura pode ser caracterizada pelas duas palavras do título, humilhação e glória?
Sempre houve mulheres que, mesmo em alturas de repressão, conseguiram contrariar o seu estatuto, mas na maior parte dos casos foram ignoradas, o que, por si só, já é uma humilhação. Se não fossem rainhas, ou de igual estirpe, não tinham voz ativa na polis, nem na comunidade. Quando novas, eram objeto de desejo, envelhecendo, perdiam a ‘importância’ que poderiam ter. Digo também glória no sentido em que, a partir de um determinado momento (no espaço e no tempo), houve uma mudança (até relativamente rápida) de paradigma. Apesar de vários incidentes, as mulheres conseguiram ocupar o seu devido lugar na sociedade.

Que critérios usou para selecionar as mulheres referidas nestes estudos?
Não houve, como disse, uma vontade de ser exaustiva. E muitas outras figuras podiam integrar este volume. Entendo-o como uma espécie de teaser, um incentivo a novas investigações nesta área, até porque os estudos de género estão desenvolvidos em Portugal, com abordagens variadas. Nesse sentido, interessou-me colocar as mulheres portuguesas num contexto europeu – e da cultura ocidental –, o que nem sempre é feito.

Nessa comparação, o que se pode concluir?
Que, sobretudo até ao Estado Novo, acompanhámos as tendências do resto da Europa. E que há figuras absolutamente extraordinárias. Não nos podemos esquecer, por exemplo, que Soror Maria Alcoforado (sem querer estar a discutir a sua verdadeira identidade) esteve na origem de muita da literatura do século XVIII, como o género epistolar e a sua recuperação pelos Românticos.

Na emancipação feminina, a literatura e as artes desempenharam um papel importante?
Acho que sim. Pode-se privar uma pessoa de liberdade, fechando-a num espaço, mas tirar-lhe a capacidade criativa, de pensar e escrever é muito mais difícil. É seguramente possível, mas não é simples. E, de facto, as mulheres, nomeadamente a partir do século XVIII, mesmo ficando em casa, começaram (e em alguns casos foram incentivadas a isso) a ocupar-se de áreas que, aos olhos masculinos, não eram chocantes para a condição feminina. Provavelmente, esqueceram-se que a criatividade é sempre subversiva. Assim, através da escrita, da poesia, da pintura e da escultura, foi possível às mulheres mudar o status quo e acordarem do longo sono a que foram condenadas.










Helena Vasconcelos
HUMILHAÇÃO E GLÓRIA
Quetzal, 328 pp, 15,50 euros

Thursday, March 1, 2012

Rubem Fonseca 'superstar'



Sempre bem-disposto, acessível, sorridente. Até falador. Eis a imagem que Rubem Fonseca deixou nas Correntes d'Escritas. Sim, falamos mesmo do escritor brasileiro, aquele que não gosta de ser visto, nem entrevistado, aquele que, por ser tão cioso do seu espaço, é uma espécie de passageiro clandestino da literatura brasileira. Um mito.
A ocasião, diga-se, não era para menos. Em Portugal, Rubem Fonseca sentiu-se em casa. Ganhou o Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído ao romance Bufo & Spallanzani, e recebeu duas medalhas de mérito cultural, do Governo e da Câmara Municipal de Lisboa. Da parte dos leitores, o entusiasmo não foi menor. Em ano de cortes orçamentais, o escritor foi o grande trunfo deste encontro de escritores de expressão ibérica, organizado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. E não desiludiu.
Com uma receção calorosa - e talvez por sentir que, aos 86 anos, esta terá sido a última visita à terra dos seus pais, que diz amar profundamente, tal como à língua portuguesa -, Rubem Fonseca abriu o livro da sua vida.E revelou o que fez dele (e pode fazer de toda a gente) escritor.
Quando chegou a sua vez de falar, na primeira de sete mesas-redondas das Correntes, animadas por cerca de 60 autores, declarou-se filho da escola «peripatética», a dos seguidores de Aristóteles, que, para pensar, andavam. Levantou-se e encarou o público. Cerrando os punhos, num gesto vigoroso que haveria de repetir muitas vezes, disse: "Para ser escritor é preciso ser louco." E citou o norte-americano E. L. Doctorow, para quem escrever era uma forma socialmente aceite de esquizofrenia. Claro que esta loucura, pessoal e intransmissível, não é suficiente. "Convém ser alfabetizado", brincou. "Mas não muito."
A estes traços de personalidade é necessário acrescentar outros, continuou. A «motivação», pois, sem ela, «nada se faz». Também a paciência. Não uma qualquer, mas a que o imperador Augusto cultivava, segundo Suetónio: festina lente, "apressa-te devagar", sem nunca parar de escrever. É tudo? Não, faltava ainda a imaginação. A mesma que vemos nos seus livros e que usou para surpreender quem com ele conviveu nestes dias. Em ano de crise, o ambiente nas Correntes foi de festa. À grande arte de Rubem Fonseca ninguém ficou indiferente.

Texto (que já segue o novo Acordo Ortográfico) publicado hoje na revista Visão, na secção Noites Passadas.

Saturday, February 25, 2012

Diário das Correntes: Crise ou talvez não

Com referências a crises, economias e investimentos literários, as Correntes d'Escritas seguem a bom ritmo. Ontem, um dia intenso. Quatro mesas, a que acrescentei uma visita à Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, para falar com os alunos de Comunicação Social da Universidade do Porto, na companhia de Júlio Magalhães.
A crise tem estado presente nestas Correntes, mas só nos temas das mesas: O fim da arte é libertar, A Poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras, Toda a literatura é pura especulação e A escrita é um investimento inesgotável no prazer. De resto, muito público e boas intervenções.
Sem tempo para crónicas imediatas, tenho pedido alguns textos lidos pelos escritores, que ao longo do fim-de-semana aqui divulgarei.


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Friday, February 24, 2012

Diário das Correntes: 2.ª Mesa


Programa do dia: 10h30 - 2ª Mesa O fim da arte superior é libertar, com Alberto S. Santos, Fernando Pinto do Amaral, José Jorge Letria, Luís Quintais, Sofia Marrecas Ferreira, Care Santos e João Gobern.

Diário das Correntes: A conferência de D. Manuel Clemente

Com menos um dia, o ritmo das Correntes é ainda mais rápido. Mesas, lançamentos, escritores. Algumas mesas ficam com crónica adiada. Mas vale a pena remeter os leitores d'A volta do parafuso para o site da Diocese do Porto, onde está disponível a conferência que D. Manuel Clemente na abertura das Correntes d'Escritas, ontem, às 15 horas, no Auditório Municipal. Dois excertos:

"A minha avó não gostava de viajar por fora. Enviuvou cedo e demorou depois numa quinta pacata, ao ritmo da noite e do dia, do dia e da noite, das estações do ano e dos ciclos agrícolas. Viajava sim por dentro, por dentro da sua grande casa e das constantes reparações que gostava de fazer, reduzindo os países e continentes aos espaços domésticos que remodelava à vez, assim pudesse. Morando numa casa cheia de recordações geracionais, não gostava de velharias, nem se entretinha com elas, aderindo de bom grado às novidades do tempo, viajando com o século - ou entre séculos, pois nascera em 1890 e falava de D. Carlos e D. Manuel II, Afonso Costa ou Sidónio Pais, como nós falamos de personagens de agora. Mas sem saudades pesadas, porque a viajem continuava."

"A minha mãe cultivava mais a memória e lembrava espontaneamente episódios históricos. Sobretudo nossos, pois era medularmente patriota, sem ser minimamente chauvinista, bem pelo contrário. E tinha o maior gosto em viajar para fora, assim também pudesse. E pôde pouco, porque se espraiava em atividades domésticas, religiosas, cívicas e culturais; e porque acompanhou dedicadamente os últimos anos do seu marido e da sua longeva mãe. Mas com que alegria – dela e minha – percorremos o país em curtas viagens de Verão, ficando eu ainda mais intimamente conjugado entre mátria e pátria. E já nos seus oitenta, aí foi ela contente, como a revejo em fotografias que vão da Noruega à Índia… E ai dos mais novos, bem mais novos até, que não lhe acompanhassem a passada."

Para ler aqui.

Thursday, February 23, 2012

Diário das Correntes: Os cinco mandamentos de Rubem Fonseca


A fotografia é má, mas a imagem que Rubem Fonseca deixou no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, durante a primeira mesa das Correntes d'Escritas, foi boa. Muito boa. Se fosse mesmo uma fotografia, seria nítida e impressionante. E clara também. O escritor recluso, cioso do seu espaço e da sua imagem, passageiro invisível da literatura de língua portuguesa, revelou-se um performer nato, capaz de cativar uma plateia com poucas palavras. Andou, falou, sorriu, citou, encolheu-se e libertou-se e deixou, para quem quis ouvir e seguir-lhe o conselho, os seus cinco mandamentos: loucura, alfabetização, paciência, motivação e imaginação. Mas isto é ir rápido demais. 
De início, Rubem Fonseca, que nesta mesa foi acompanhado por Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Hélia Correia e Ana Paula Tavares, companheiros de luxo, portanto, começou por dizer que era do estilo peripatético. Só consegue falar enquanto anda. Levantou-se, pegou no microfone e deu o primeiro passo. O que, como se sabe, ou pelo menos como diz o ditado português, segundo o qual devagar se vai ao longe, lançou-se para a sua intervenção. Desta vez, como de manhã, não sublinhou o orgulho que sentia em ter sangue português a correr-lhe pelas veias. Isso já havia feito, pouco tempo antes da mesa ter começado, quando o Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, lhe entregou a Medalha de Mérito Cultural, em nome do Governo português. Insistindo ainda nos ditados populares, poderíamos dizer que, se a casa todo o filho retorna, para os netos também está escrito semelhante destino. O seu pai, depois de emigrar, nunca voltou a Portugal. Mas agora o seu filho, escritor consagrado, aqui foi recebido com todas as honras que lhe são devidas. Rubem Fonseca disse até, num surpreendente tom de brincadeira, que só depois de vermos a sua intervenção na primeira mesa percebemos que lhe é tão natural, que esta era uma homenagem "mais do que merecida". Todos sorrimos. Ele também. 
E mais sorrimos quando o vimos a andar em cima do palco, da esquerda para a direita, em nossa direcção, falando sobre o que faz um escritor. Ou terá sido o que fez dele um escritor.? A dúvida ficou no ar, até porque o primeiro mandamento desarmou logo a plateia. "É preciso ser louco", disse ele, glosando o escritor norte-americano E. L. Doctorow, para quem escrever é uma forma socialmente aceite de esquizofrenia. E acrescentou: "Nessa mesa somos todos loucos. Cada um à sua maneira". Têm dúvidas? "Então leiam o texto do Foucault sobre as relações entre a loucura e a escrita literária". 
Para quem lê os livros de Rubem Fonseca, esta intervenção revelou tudo o que o escritor brasileiro tem de melhor. Uma escrita (e um discurso) ágil, um contínuo sentido de humor, uma erudição sem fim, citações suas e alheias e algum suspense. Nos livros, como na Póvoa. É que a seguir à loucura veio outro mandamento. "Basta ser louco?", questionou-se Rubem Fonseca. "Não. É preciso ser alfabetizado". Ajuda, de facto. "Mas não precisa de ser muito", brincou o autor de Bufo & Spallanzani. "Só existe um exemplo de um escritor analfabeto e foi no século XIV. Catarina de Siena". Mas esta era santa. Por isso: "Só podia ser milagre". Mas atenção, frisou Rubem Fonseca: "Como santa ela era louca, porque todos os santos são loucos". Não há dúvida. 
Adiante, que um terceiro mandamento se seguiu. Antes, uma ideia retirada de Conrad. "Todo o escritor deve fazer um leitor sentir e, acima de tudo, ver. Eis o que é mais importante. Ver para poder entender". E isso envolve inteligência? Nem por isso, basta lembrar o que dizia Somerset Maugham: "Ele conheceu centenas e centenas de escritores e poucos, muito poucos eram inteligentes. Eu concordo com ele, sabiam?". 
Então o que é preciso? O terceiro mandamento: "O escritor tem de ser motivado". Sem ela, nada faz. O mesmo dizia Rubem Fonseca no livro de crónicas José, em que recorda a sua infância: "Se o aspirante a escritor não tiver uma motivação forte escreverá quando muito alguns poemas de dor de cotovelo, alguns contos, talvez mesmo um romance, mas logo desistirá". 
Não se pense, contudo, que a motivação é coisa de outro mundo. Qualquer uma é válida. Veja-se o caso de Manuel Vázquez Montalbán, lembrou Rubem Fonseca: "Ele escrevia para poder ser alto e bonito", pois era "baixinho" e um "pouco feio". 
Já íamos com três características dos escritores. Faltavam duas, percebemos à medida que o show continuava. "É tudo? Não. Ele, o escritor, tem de ter paciência." Não uma paciência qualquer, mas a que o imperador romano Augusto cultivava, segundo Suetónio: Festina lente. "Apressa-te devagar". Nunca parar de fazer, mas fazê-lo devagarinho, como diria um bom alentejano. Todos os dias. Escrever, mas procurar sempre "le mot juste" de que falava Flaubert. "Ele, sim, sabia que não havia sinónimos. Ouviram, não existem sinónimos". Para esta intervenção também não. Um espectáculo. Que ainda não estava acabado.
"Muito bem", continuou Rubem Fonseca, com a nossa concordância. "Acabou?", acrescentou, com a plateia a responder por ele: "Não". Pois é. Faltava uma coisa. "Ele, o escritor, tem de ser imaginativo. Tem de ter imaginação." A mesma que encontramos nos seus livros.
"Está entendido?", perguntou o escritor brasileiro a fechar. Está sim, senhor Rubem Fonseca. "Só mais uma coisinha", acrescentou. "Vocês aí que não são escritores, não vão pensando que também não são loucos..."