É palavra de mil subtilezas, doces
carícias e suaves encantos. A delicadeza - dos gestos, das falas, das sensações
- seduz qualquer um. E ao seu feitiço não foi indiferente David Foenkinos, que
se deixou inebriar ao ponto de fazer dela o tema do seu último romance. É a
partir da delicadeza que o escritor francês traça o contorno das personagens e
as coloca em ação, numa história de amores e desamores, alegrias e tragédias,
encontros e desencontros. De França, por e-mail, Foenkinos respondeu às
perguntas que o lhe enviámos, a começar por esta:
O que é, para si, a delicadeza?Uma forma de
ouvir o outro. De prestar atenção àquilo que ele diz.
É uma qualidade humana que o seduz particularmente?
Sim, é muito importante. O ouvido é a chave de qualquer relação.
E quando percebeu que a delicadeza podia ser o
centro de um romance?
Quando reparei que o
mundo andava demasiado depressa, ou era demasiado brutal, e que era necessário
abrandar até à doçura.
[Talvez seja essa a angústia de Nathalie. A viver
uma relação perfeita, sem tristezas nem lamúrias, ela vê-se atirada para um
vórtice de emoções. De um momento para o outro, tudo passa a andar rápido demais. Depois de sair para correr, o seu
marido sofre um acidente mortal. Deixa-a sozinha, entregue à velocidade do
sofrimento e ao insuportável peso da dor que se instalou no seu corpo. "Abrandar
até à doçura" é o caminho que tem pela frente, para assim conseguir
reconstruir a vida, perspetivar o futuro e equacionar a hipótese de um novo
encontro.]
Uma vez focado na
delicadeza, qual foi depois o ponto de partida desta história?
Um homem chega mesmo no bom momento na vida de uma mulher. Porque este é
um livro sobre a ideia de que, no amor, o que conta é o bom momento do encontro.
Parece ser também uma história sobre o amor depois
do amor (ou da felicidade depois da felicidade). Concorda?
É uma história sobre um
amor que acreditamos estar morto e que se regenera de uma forma incessante.
E sobre a ausência de razão no sentimento...
Exatamente! Não decidimos nada no amor, pois é o nosso corpo que decide!
[Escutar o corpo, ouvir a mente. Nathalie
reaprenderá, aos poucos, estas básicas leis da sobrevivência e do instinto. Sair
da escuridão em que se enfiou depois da morte do marido e regressar à vida, às
relações, à rua, ao trabalho. Sobretudo ao trabalho, onde pode entregar-se às
suas rotinas, sem se preocupar com decisões íntimas ou com consequências
pessoais. Será na opacidade dos espaços empresariais, neste caso numa sucursal
francesa do IKEA, que Nathalie avançará por fragmentos de um discurso amoroso,
surpreendendo e surpreendendo-se.]
Por que razão escolheu um local de trabalho para cenário deste romance?
Queria que o livro se desenrolasse num ambiente depressivo... E uma empresa
pareceu-me o ideal!
A tensão que estes espaços emanam não é muito abordada na literatura. Foi um
desafio?
O mundo da empresa é o mundo do olhar. Toda a gente se espia constantemente. É como um país em tempo de
guerra. Há alianças, conspirações...
[De alianças e conspirações teriam
muito a dizer Nathalie e Markus, que entre corredores e secretárias, dossiers e
reuniões, encontraram os seus respetivos bons
momentos. A delicadeza, entre os dois, começará, mesmo que nenhum deles saiba
para onde se dirige. E sem que disso se apercebam, os dois serão transformados
em personagens de um teatro cuja plateia é o escritório em que trabalham. Como
dois polos opostos, Nathalie e Markus usam a energia que os rodeia para
inevitavelmente se atraírem.]
Como desenhou as duas personagens principais? Partiu de algumas imagens ou
ideias concretas?
Alguns disseram-me que era um pouco "a bela e o monstro". Eu
queria que o casal fosse muito bizarro ao princípio
e perfeitamente evidente no fim.
A originalidade é um dos talentos de Markus (e uma das angústias de Charles,
o seu patrão e o de Nathalie também). Qual o seu segredo?
O Markus tem sobretudo humor e isso é o essencial.
[Um homem encontra uma mulher. Uma mulher encontra um homem. Os dois
encontram-se. Há séculos que a Humanidade revisita este tema, sem que por isso
deixe de nos cativar. Parece que cada história particular é suficiente
universal para tocar em leitores de proveniências muito distintas. Mas não é
pela imaginação ou subtileza que Foenkinos nos prende nesta história. É pelo
seu narrador, que conta e comenta, descreve e intui, julga e absolve. É uma voz
forte, que nos acompanha do início ao fim, muito mais do que as personagens,
tão imersas que estão nos seus dramas afetivos.]
Criar um narrador com uma voz forte foi algo que o preocupou?
O escritor deve sempre estar lá, mas sem tornar o texto mais pesado. Eu
levo as minhas personagens pela mão. E vivo com elas. Gostaria muito de ser o
Markus quando ele beija a Nathalie.
E em relação à forma através da qual essa voz se expressa (umas vezes em
longos capítulos narrativos, outras em pequenos apontamentos ou curiosidades):
o que procurou com estas mudanças de ritmo?
É como uma respiração. E depois,
se não se gosta do livro, pelo menos aprende-se muitas coisas! Até há receitas
em A Delicadeza!
No entanto, nem sempre é fácil identificar uma lógica nesses capítulos
curtos.
Alguns têm um grande interesse para o livro, outros são apenas leves e
permitem-nos aprender pequenas coisas sobre artistas.
[A solução é entrar no jogo e aproveitar essas pausas para recordar o que se leu
e supor o que se seguirá. Alguns apontamentos, de facto, pouco acrescentam e,
em certos casos, são inclusivamente de duvidosa utilidade. Mas outros abrem
pequenas janelas dentro do livro, como aqueles pintores
renascentistas que pintavam quadros
dentro dos quadros ou aqueles escritores meta-literários que nos deixam a
pensar em livros e autores que não existem. Caberá ao leitor decidir se vai a
jogo e se aprecia a sua aparente ausência de regras. Porque tudo é feito tendo
em vista o seu conforto. A começar pelo humor, que atravessa o livro como uma
linha que ata os personagens e os capítulos.]
Procurou intencionalmente esse registo humorístico?
Sim! Quero que o leitor tenha prazer. É uma história séria e triste, mas
quis tratá-la com humor.
Que livros o fizeram rir nos últimos tempos?
Gosto de livros divertidos, como os de Albert Cohen.
[A literatura e a música são as marcas do percurso de David Foenkinos, que
nasceu em Paris, em 1974. Ao mesmo tempo que estudava na Sorbonne, completava a
sua formação em jazz. Talvez seja essa a razão por que muda tanto de registo
literário, assim como quem muda de instrumento. Estreou-se, em 2001, com Inversion de L'idiotie, logo
distinguido com o Prémio François Mauriac, e nos últimos anos publicou
romances, guiões para cinema, peças de teatro e bandas desenhadas. É caso para
perguntar se:]
A música e a literatura são campos que se cruzam?
Deixei a música para escrever, e ainda bem para os vossos ouvidos.
E o que o levou a ser escritor? Ou, recorrendo à pergunta clássica, por que
escreve?
Era a melhor forma de me exprimir. E de seduzir.
O que está a escrever?
Neste momento, tenho um livro que vai ser lançado em França que se intitula Les Souvenirs. E adaptei A Delicadeza ao cinema [com o seu irmão, Stéphane
Foenkinos], com Audrey Tatuou como atriz principal. Estreia em França, em
dezembro. Espero que depois chegue a Portugal.

David Foenkinos
A DELICADEZA
Tradução de Catarina Almeida
Presença, 232 pp, 14,90 euros
Entrevista publicada no site do JL.