Sunday, November 27, 2011

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"Going back will be different from going away, even though the road is the same, the road that leads from home and back home."

Gudbergur Bergsson, in The Swan

Saturday, November 26, 2011

Portugal

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir 

como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira que 

o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga

ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal

Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



Jorge Sousa Braga, in De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu

Wednesday, November 23, 2011

A suave delicadeza dos (des)encontros segundo David Foenkinos



É palavra de mil subtilezas, doces carícias e suaves encantos. A delicadeza - dos gestos, das falas, das sensações - seduz qualquer um. E ao seu feitiço não foi indiferente David Foenkinos, que se deixou inebriar ao ponto de fazer dela o tema do seu último romance. É a partir da delicadeza que o escritor francês traça o contorno das personagens e as coloca em ação, numa história de amores e desamores, alegrias e tragédias, encontros e desencontros. De França, por e-mail, Foenkinos respondeu às perguntas que o lhe enviámos, a começar por esta:

O que é, para si, a delicadeza?Uma forma de ouvir o outro. De prestar atenção àquilo que ele diz.

É uma qualidade humana que o seduz particularmente?
Sim, é muito importante. O ouvido é a chave de qualquer relação.

E quando percebeu que a delicadeza podia ser o centro de um romance?
Quando reparei que o mundo andava demasiado depressa, ou era demasiado brutal, e que era necessário abrandar até à doçura.

[Talvez seja essa a angústia de Nathalie. A viver uma relação perfeita, sem tristezas nem lamúrias, ela vê-se atirada para um vórtice de emoções. De um momento para o outro, tudo passa a andar rápido demais. Depois de sair para correr, o seu marido sofre um acidente mortal. Deixa-a sozinha, entregue à velocidade do sofrimento e ao insuportável peso da dor que se instalou no seu corpo. "Abrandar até à doçura" é o caminho que tem pela frente, para assim conseguir reconstruir a vida, perspetivar o futuro e equacionar a hipótese de um novo encontro.]

Uma vez focado na delicadeza, qual foi depois o ponto de partida desta história?
Um homem chega mesmo no bom momento na vida de uma mulher. Porque este é um livro sobre a ideia de que, no amor, o que conta é o bom momento do encontro.

Parece ser também uma história sobre o amor depois do amor (ou da felicidade depois da felicidade). Concorda?
É uma história sobre um amor que acreditamos estar morto e que se regenera de uma forma incessante.

E sobre a ausência de razão no sentimento...
Exatamente! Não decidimos nada no amor, pois é o nosso corpo que decide!

[Escutar o corpo, ouvir a mente. Nathalie reaprenderá, aos poucos, estas básicas leis da sobrevivência e do instinto. Sair da escuridão em que se enfiou depois da morte do marido e regressar à vida, às relações, à rua, ao trabalho. Sobretudo ao trabalho, onde pode entregar-se às suas rotinas, sem se preocupar com decisões íntimas ou com consequências pessoais. Será na opacidade dos espaços empresariais, neste caso numa sucursal francesa do IKEA, que Nathalie avançará por fragmentos de um discurso amoroso, surpreendendo e surpreendendo-se.]

Por que razão escolheu um local de trabalho para cenário deste romance?
Queria que o livro se desenrolasse num ambiente depressivo... E uma empresa pareceu-me o ideal!

A tensão que estes espaços emanam não é muito abordada na literatura. Foi um desafio?
O mundo da empresa é o mundo do olhar. Toda a gente se espia constantemente. É como um país em tempo de guerra. Há alianças, conspirações...

[De alianças e conspirações teriam muito a dizer Nathalie e Markus, que entre corredores e secretárias, dossiers e reuniões, encontraram os seus respetivos bons momentos. A delicadeza, entre os dois, começará, mesmo que nenhum deles saiba para onde se dirige. E sem que disso se apercebam, os dois serão transformados em personagens de um teatro cuja plateia é o escritório em que trabalham. Como dois polos opostos, Nathalie e Markus usam a energia que os rodeia para inevitavelmente se atraírem.]

Como desenhou as duas personagens principais? Partiu de algumas imagens ou ideias concretas?
Alguns disseram-me que era um pouco "a bela e o monstro". Eu queria que o casal fosse muito bizarro ao princípio e perfeitamente evidente no fim.

A originalidade é um dos talentos de Markus (e uma das angústias de Charles, o seu patrão e o de Nathalie também). Qual o seu segredo?
O Markus tem sobretudo humor e isso é o essencial.

[Um homem encontra uma mulher. Uma mulher encontra um homem. Os dois encontram-se. Há séculos que a Humanidade revisita este tema, sem que por isso deixe de nos cativar. Parece que cada história particular é suficiente universal para tocar em leitores de proveniências muito distintas. Mas não é pela imaginação ou subtileza que Foenkinos nos prende nesta história. É pelo seu narrador, que conta e comenta, descreve e intui, julga e absolve. É uma voz forte, que nos acompanha do início ao fim, muito mais do que as personagens, tão imersas que estão nos seus dramas afetivos.]

Criar um narrador com uma voz forte foi algo que o preocupou?
O escritor deve sempre estar lá, mas sem tornar o texto mais pesado. Eu levo as minhas personagens pela mão. E vivo com elas. Gostaria muito de ser o Markus quando ele beija a Nathalie.

E em relação à forma através da qual essa voz se expressa (umas vezes em longos capítulos narrativos, outras em pequenos apontamentos ou curiosidades): o que procurou com estas mudanças de ritmo?
É como uma respiração. E depois, se não se gosta do livro, pelo menos aprende-se muitas coisas! Até há receitas em A Delicadeza!

No entanto, nem sempre é fácil identificar uma lógica nesses capítulos curtos.
Alguns têm um grande interesse para o livro, outros são apenas leves e permitem-nos aprender pequenas coisas sobre artistas.

[A solução é entrar no jogo e aproveitar essas pausas para recordar o que se leu e supor o que se seguirá. Alguns apontamentos, de facto, pouco acrescentam e, em certos casos, são inclusivamente de duvidosa utilidade. Mas outros abrem pequenas janelas dentro do livro, como aqueles pintores renascentistas que pintavam quadros dentro dos quadros ou aqueles escritores meta-literários que nos deixam a pensar em livros e autores que não existem. Caberá ao leitor decidir se vai a jogo e se aprecia a sua aparente ausência de regras. Porque tudo é feito tendo em vista o seu conforto. A começar pelo humor, que atravessa o livro como uma linha que ata os personagens e os capítulos.]

Procurou intencionalmente esse registo humorístico?
Sim! Quero que o leitor tenha prazer. É uma história séria e triste, mas quis tratá-la com humor.

Que livros o fizeram rir nos últimos tempos?
Gosto de livros divertidos, como os de Albert Cohen.

[A literatura e a música são as marcas do percurso de David Foenkinos, que nasceu em Paris, em 1974. Ao mesmo tempo que estudava na Sorbonne, completava a sua formação em jazz. Talvez seja essa a razão por que muda tanto de registo literário, assim como quem muda de instrumento. Estreou-se, em 2001, com Inversion de L'idiotie, logo distinguido com o Prémio François Mauriac, e nos últimos anos publicou romances, guiões para cinema, peças de teatro e bandas desenhadas. É caso para perguntar se:]

A música e a literatura são campos que se cruzam?
Deixei a música para escrever, e ainda bem para os vossos ouvidos.

E o que o levou a ser escritor? Ou, recorrendo à pergunta clássica, por que escreve?
Era a melhor forma de me exprimir. E de seduzir.

O que está a escrever?
Neste momento, tenho um livro que vai ser lançado em França que se intitula Les Souvenirs. E adaptei A Delicadeza ao cinema [com o seu irmão, Stéphane Foenkinos], com Audrey Tatuou como atriz principal. Estreia em França, em dezembro. Espero que depois chegue a Portugal.














David Foenkinos
A DELICADEZA
Tradução de Catarina Almeida
Presença, 232 pp, 14,90 euros

Entrevista publicada no site do JL


Tuesday, November 22, 2011


Há poemas na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Hoje e nos próximos meses, no Teatro Tivoli. Avenida de Poemas parte do princípio que "há poemas que nos salvam. Há poemas que nos ajudam a sobreviver. Há poemas que nos ensinam a respirar. E outros que nos ensinam a cair". 

Em cada sessão, um convidados, às vezes distante do mundo literário, será desafiado a falar dos seus poemas e a revelar um lado provavelmente menos conhecido da sua personalidade. O ciclo mensal de encontros arranca esta noite, às 21 e 30, com Pilar de Río e também pode ser acompanhado ao vivo no site do jornal Expresso, no blogue da Avenida de Poemas, que regularmente terá novidades sobre esta iniciativa promovida por Raquel Marinho e José Mário Silva.

Monday, November 21, 2011

Andrei Tarkovski

Andrei Tarkovski, Auto-retrato integrado na exposição Luz Instantânea,
patente no CCB até 4 de Dezembro

Tuesday, October 25, 2011

Thursday, September 1, 2011

Apresentação à imprensa de O filho de mil homens

Valter Hugo Mãe, Alexandre Vasconcelos e Sá e Clara Capitão 

Valter Hugo Mãe com um desenho inédito de Luís Silva,
incluído no novo romance.  
Valter Hugo Mãe a ler o texto que preparou para a sessão

Caixa e exemplar oferecido aos jornalistas. 

"O filho de mil homens, depois de me ter ferido com a escrita de a máquina de fazer espanhóis, é uma tentativa inequívoca de pensar em gente boa a ver se sou gente boa e se mudo as energias das sortes", afirmou Valter Hugo Mãe durante a apresentação aos jornalistas do seu novo romance, que decorreu hoje de manhã, na sala de âmbito cultural do El Corte Inglés. 

O livro chega às livrarias no próximo dia 24, e é a grande aposta para a rentrée da Alfaguara, do grupo Objectiva/Santilhana, dirigida em Portugal por Alexandre Vasconcelos e Sá e Clara Capitão. Para Valter Hugo Mãe é o início de um novo ciclo na sua obra, depois da tetralogia composta pelos romances o nosso reino, o remorso de baltazar serapião, o apocalipse dos trabalhadores e o já citado a máquina de fazer espanhóis

"O Crisóstomo, que é todo esperto porque o inventei para ser todo esperto, ensinou-me muita coisa. Mas não é nada de complicado. Muito pelo contrário. Ensinou-me a simplificar. É o que mais quero, simplificar. Estou a dizer-vos que acho que escrevi um livro simples, e que espero, simplesmente, que gostem", acrescentou Valter Hugo Mãe. 

A leitura está reservada para o próximo fim-de-semana. Primeiras impressões a qualquer momento. 

PS: É verdade, A volta do parafuso regressou. Por quanto tempo? Who knows...

Sunday, May 15, 2011

Os melhores livros de não-ficção

Último dia da Feira do Livro de Lisboa, último debate. Hoje, domingo, 15, a partir das 17 e 30, no Auditório, vou moderar uma mesa-redonda sobre os melhores livros de não-ficção lançados entre as feiras. Com Irene Flunser Pimentel, Manuel Gusmão, Miguel Real e Nuno Crato.

Depois, é aproveitar as derradeiras horas para comprar o que ficou por comprar. Até porque, a partir das 22, anunciou ontem a APEL, haverá uma excepcional "hora h". Livros com 50 por cento de desconto.