Sunday, May 15, 2011
Os melhores livros de não-ficção
Saturday, May 14, 2011
Vida d'Escrita
Thursday, May 12, 2011
Da rua para mundo
MAP: novos livros no prelo

Posologia: sem limite

E o Prémio Camões vai para...
No retrovisor da História

Este poderia ser um policial igual a tantos outros. “Um táxi despenhara-se por volta do quilómetro 17 da estrada que conduz ao aeroporto”, lê-se na sequência de abertura. “Os dois passageiros tinham morrido de imediato, enquanto o motorista, gravemente ferido, fora transportado em coma para o hospital”. Os ingredientes estão cá: um acidente sem motivo aparente (“o veículo não deixará o menor vestígio de travagem”) e um dado que não esclarece, só complica. Uma vez recuperado, o motorista diz que o despiste foi causado pelo que viu através do retrovisor. E o que viu? Um beijo...
Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Philip Marlowe ou Pepe Carvalho, qual destes detectives não seria capaz de resolver tão rebuscado mistério? A abordagem de Ismail Kadaré, no entanto, é outra. Para o escritor albanês, o acidente é apenas um pretexto para falar de conflitos, relações de poder, reconstrução do passado e do papel que a ficção desempenha nesse processo. É que o investigador encarregue de solucionar o “Caso do quilómetro 17” acaba por desistir da via factual. Ouvidas as testemunhas, reunidos os documentos e reconstituída a viagem, toma uma decisão: “Numa noite de fim de Verão, ele pôs-se verdadeiramente a imaginar”, diz o narrador. E, na segunda parte de “O Acidente”, lemos a história que o investigador criou a partir das muitas peças deste puzzle. Só assim, pensa, será possível explicar o que levou uma jovem e bela estagiária do Instituto Arqueológico de Vienna a aproximar-se de um velho e críptico analista do Conselho da Europa. Percebendo a relação que erguem e destroem, em paixões e rancores alternados, o investigador entenderá igualmente a história recente dos Balcãs Ocidentais.
As feridas deixadas pela fragmentação da ex-Juguslávia e pelos regimes totalitários que aí impuseram a sua lei, e contra aos quais Kandaré se opôs, são fendas tão profundas como as que, aos poucos, vão separando este casal. No tribunal de Haia, a que Bessfort terá de comparecer, como na defesa do amor, a que Rovena se entrega, ou ainda como na curva da estrada que o taxista não vê, a descoberta da verdade afigura-se sempre uma tarefa impossível. Porque, conclui o investigador, “há diversas verdades, para além daquela que julgamos ver. Não as conhecemos. Não podemos. Talvez sejam invisíveis”. Visto através do retrovisor, o passado é um enigma que só a literatura pode desvendar.
Texto publicado no Jornal i, a 9 de Abril de 2011.
Saturday, May 7, 2011
Monday, May 2, 2011
Sugestões de leitura para Maio
No coração do convento
Poetisa, romancista e co-autora de uma das obras mais emblemáticas da Literatura Portuguesa (“Novas Cartas Portuguesas”), Maria Teresa Horta publica agora aquele que será sem dúvida o seu grande livro: “As Luzes de Leonor”, uma biografia romanceada de Leonor de Almeida Portugal, neta dos marqueses de Távora e sua quinta bisavó. Ao longo de mil páginas, Teresa Horta mistura vários registos e géneros literários, da poesia ao diário, da ficção à história, para fazer sobressair esta figura única que, em 1758, foi enclausurada no Convento de S. Félix juntamente com a mãe e irmã. Tinha apenas oito anos quando o futuro marquês de Pombal traçou o seu destino e só saiu aos 27. Mas nessa altura já Portugal se agitava com o que se dizia da sua beleza e com a qualidade da sua poesia. Um romance no coração do convento.
AS LUZES DE LEONOR
Maria Teresa Horta
Dom Quixote
29 de Maio
Nas habituais previsões antes do anúncio do vencedor, “C”, do inglês Tom McCarthy, era tido como o grande favorito no Man Booker Prize de 2010. Mas o prémio não foi parar às suas mãos, o que reforça a ideia dos prognósticos só serem certeiros no fim do jogo. Fica, no entanto, o mais importante: a obra. E não é pouco. “C” é um extraordinário romance sobre a arte da comunicação, que Serge Carrefax aprenderá a dominar desde os tempos do telégrafo aos códigos secretos da Primeira Guerra Mundial.

É o caminho que faz a viagem, não o destino. Esta talvez não seja uma máxima partilhada por todos os viajantes, mas é a que distingue Paul Theroux, que tem percorrido os quatro cantos do mundo recorrendo quase sempre a transportes terrestres. Um dia, saiu de casa, nos EUA, e só parou na Patagónia, no extremo da América do Sul. Em “O Grande Bazar Ferroviário” conta-nos como atravessou a Europa e a Ásia de comboio, a bordo do Expresso do Oriente, Transiberiano, Expresso da Meia Noite e Flecha de Ouro.
“Este livro não tem brandos costumes. Nem nós”. Eis como Rui Cardoso Martins apresenta o primeiro de dois volumes sobre o crime e o castigo na História de Portugal. E não se trata de uma conclusão apressada. É a que se impõe após a leitura destes episódios que desfazem o mito do país sereno à beira-mar plantado. Em Portugal, como em qualquer país, existe violência, mesmo quando é escondida. Pedro Almeida Vieira revela-a, citando processos judiciais, artigos de imprensa e memórias populares.
África é uma das grandes paixões de Tim Butcher, à qual tem dedicado grande parte da sua vida. Na origem desta atracção estão as histórias de exploradores destemidos que a mãe lhe contava quando era criança. E foi com igual coragem que Butcher atravessou o “caminho da morte”: a Serra Leoa e a Libéria. A reportagem que nos deixa em “À Caça do Diabo” é uma viagem pela violência que assola esses países e pelas aventuras de outros escritores que por ali andaram, em particular Graham Greene.
À CAÇA DO DIABO
Tim Butcher
Bertrand
13 de Maio
Dubravka Ugresic é uma das mais importantes escritoras nascida na antiga Jugoslávia. Publicado em 1998, “Museu da Rendição Incondicional” é um livro de difícil classificação, na medida em que é feito de fragmentos. A vida no exílio é o fio condutor das personagens que vão sendo convocadas pela escritora em pequenos contos, excertos de diários, biografias de artistas, descrições de cidade e memórias de outros tempos, que não esquecem o Holocasto e a guerra civil que dividiu os Balcãs.
MUSEU DA RENDIÇÃO INCONDICIONAL
Dubravka Ugresic
Cavalo de Ferro
23 de Maio
Texto publicado no Jornal i, de 26 de Abril de 2011.












