Saturday, April 9, 2011

Um mergulho na escrita

Este blogue vai entrar em serviços mínimos. Não é da Primavera, que parece ter vindo para ficar, nem do Sol, que já fez esquecer as chuvas de Inverno. São projectos em atraso que tenho de acabar este fim-de-semana. Sem falta. Até segunda-feira de manhã, vou mergulhar na escrita. As próximas voltas do parafuso vão ser silenciosas.

Jornal i


Este fim-de-semaa, no Jornal i, no suplemento Livros e Viagens (LiV), textos sobre O Acidente, de Ismail Kadaré, The Crack-Up e Outros escritos, de F. Scott Fiztgerald, e Mães e Filhos, de Colm Tóbín.

Thursday, April 7, 2011

Diário da Madeira 80

Um mar de escritores

Era para ser a prova cabal da constância literária, garantiu David Machado, no Festival Literário da Madeira, que decorreu no Funchal entre dia 1 e 3 de abril. Não haveria maldições, esquecimentos, maltratos ou famas fugazes. Com o plano que gizou com o seu amigo João Tordo, o sucesso seria garantido. Rigorosos como os matemáticos, projetaram uma série de policiais sobre um assassino que só entrava em ação no primeiro dia de cada mês. Sem exceções. Um killer metódico, cerebral e eficaz. Sem remorsos. Para adensar a trama, haveria de surgir, lá para o meio, um incidente: em abril ele apenas conseguia matar no dia 2. O que era certeza passava a ser dúvida, dando início a uma grave crise pessoal e a um drama existencial. As ideias, como se vê, estavam alinhadas e os dois escritores, contou ainda David Machado, passaram às questões práticas: o ritmo da escrita, a alternância da autoria dos capítulos, o evoluir da narrativa. Tudo para cumprir, em 12 meses, 12 livros com 12 capítulos com 10 páginas cada… Está bom de ver que nem o Stephen King ou o George Simenon, conhecidos pela sua rapidez, seriam capazes de cumprir esta ambiciosa tarefa. Ou se calhar era David Machado que tinha problemas com a constância. Enquanto João Tordo escrevia um capítulo por dia, ele levava três, e as coisas pioravam quando não conseguia comprar o jornal e completar o seu habitual e inspirador sudoku. O assassino, afinal, nunca saiu de casa. Não matou ninguém.
E o projeto, na verdade, nunca existiu, mas quando o público se apercebeu disso já o autor de Deixem falar as pedras tinha conquistado a sua atenção. E feito de um embuste a melhor forma de explicar por que razão os escritores são como são: uns inconstantes, outros malditos, esquecidos, maltratados ou pouco agraciados pela fama. Até porque esse era mesmo o grande objetivo deste encontro promovido pelos Booktailors e pela editora Nova Delphi. Assumindo e reinventado o modelo das Correntes d’Escritas, o Festival Literário da Madeira pôs escritores a falar sobre escritores, navegando pelos muitos mares da literatura. O resultado não podia ter sido melhor: Uma organização exemplar, mesas suficientemente provocadoras para abrir o debate e uma arte de bem receber só à altura de uma região que há décadas é um destino turístico muito requisitado. E, agora, com um horizonte cultural mais alargado.
O público, por seu turno, correspondeu a esta iniciativa inédita na região, enchendo as duas centenas de lugares disponíveis. Ouviu histórias, como a de David Machado, mas também sugestões de leitura, metáforas, lembranças do passado e modos de entender a literatura. Pedro Vieira, por exemplo, apresentou a sua lista de escritores malditos, que começa em Brendan Behan (com quem partilha a máxima “sou um alcoólico com um problema de escrita”) e acaba em Céline, passando por Marx, Diego Maradona e Margarida Rebelo Pinto. Rui Zink brincou com a ideia de sucesso, falando dos escritores famosos que invejam a profundidade dos escritores difíceis, enquanto estes lamentam não ter a facilidade de expressão daqueles. José Mário Silva deu um exemplo dos “escritores do não” que Enrique Vila-Matas tão bem descreveu em Bartleby & Companhia, Aurelino Sousa Gomes de seu nome. E este personagem inventado tinha uma opinião bem particular: “Os escritores que fogem da fama só o fazem por uma razão: para se tornarem famosos”. Sem confirmação possível, a dúvida persistiu, embora a filha de Rubem Fonseca, presente no festival, tenha apresentado uma visão diferente: “O meu pai é o escritor que eu conheço que mais foge da fama. No entanto, gosta de andar pelas ruas, observar as pessoas e ver o que se está a passar”, revelou. E concluiu: “Para Rubem Fonseca, o escritor tem de ver sem ser visto. Ou seja, para o livro aparecer, o autor tem de se esconder”.
Esquecidos, contudo, não ficaram muitos escritores que hoje, por diversas razões, poucos leem. Violante Saramago recordou Aquilino Ribeiro, da mesma forma que Eduardo Pitta evocou a geração que era conhecida antes do 25 de Abril, deixando depois uma pergunta: “Quantos sobreviveram?”. Afonso Cruz falou dos autores que compõe o seu Olimpo. Entre outros, Plotino e Platão, Gorki e Papini, Kazantzakis e Ireneu. Valter Hugo Mãe apresentou a sua coleção de malditos, que inclui Baudelaire, Genet, Artaud, Lautréamont, Alberto Pimenta e outros que tais. Já Sandro William Junqueira recordou a descoberta de Herberto Helder. Com esta corrente de testemunhos, o mar da Madeira não foi o cerco que muitas vezes representa, como lembrou Graça Alves. Foi, pelo contrário, uma inspiração.

Texto (que já segue o novo Acordo Ortográfico) publicado no JL 1057, de 6 de Abril de 2011

O desejo da ubiquidade



Na mesma cidade (Lisboa), no mesmo dia (hoje), à mesma hora (18 e 30), com autores da mesma geração. Só o local é que muda: a Livraria Leya Barata, para o lançamento do novo romance de David Machado, Deixem Falar as Pedras, com apresentação de Mário de Carvalho; e a Livraria Bertrand Chiado, para o debate sobre Autores de uma geração à rasca, com Afonso Cruz e Pedro Vieira e moderação de Anabela Mota Ribeiro. Quando é que inventam o dom da ubiquidade?

David Machado: Mentiras verdadeiras


“A mentira é o tempero da verdade”. No seu segundo romance (que é lançado hoje, quinta-feira, 7, às 18 e 30, na Livraria Leya Barata, com apresentação de Mário de Carvalho), David Machado, 32 anos, não anda muito longe desta sabedoria popular, à qual poderíamos acrescentar outra: “Quem conta um conto acrescenta um ponto”. Destas incertezas se faz Deixem Falar as Pedras, uma história com muitas histórias dentro, uma verdade feita de muitas mentiras, um facto relatado através de muitas versões. Um dia, sem saber como, Nicolau Manuel é acusado de colaborar com os antifranquistas que se refugiaram em Trás-os-Montes depois da II Guerra Mundial. Por essa mentira, foi parar à prisão e perdeu o amor (e o casamento) da sua vida. Várias décadas depois, o seu neto quer repor a verdade, fixando num caderno as memórias que desse tempo lhe chegam. Entre a cidade e a aldeia (a Lagares imaginária que já conhecemos de O Fabuloso Teatro do Gigante, o seu primeiro romance), o passado e o presente, a dúvida e a certeza, David Machado, autor ainda de um volume de contos e três livros infantojuvenis, deixa nas mãos do leitor a escolha da versão que mais lhe convém. Ou da mentira que lhe parecer mais verdadeira.

JL: Quantas histórias cabem dentro de uma história? Esta parece ser uma das perguntas centrais deste romance. Concorda?
David Machado: Sim, uma história nunca tem apenas uma forma de ser contada. Temos a base e depois as muitas narrativas que podem ser criadas a partir dela. Eu queria falar sobre a verdade e como ela se multiplica na cabeça de cada pessoa e como raramente coincide com a realidade. Porque há tantas verdades quantas cabeças.

Daí a diferença, sublinhada no livro, entre o que aconteceu e o que se recorda?
É a angústia do narrador: nunca saberá o que aconteceu, apenas o que lhe contam. É esse jogo entre verdade, realidade e mentira que me permite trabalhar uma história e os seus diferentes pontos de vista. Porque o passado vai sendo criado à medida que o presente avança no futuro.

Esses vários tempos ditaram as duas personagens principais, o neto e o avô?
Este livro surgiu quando, depois de ter lido Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes, comentei com o meu avô um dos episódios descritos por Bento da Cruz, ao que ele contrapôs: “Isso não aconteceu assim, o meu pai estava lá e viu tudo”. O que mais me interessou não foi saber que versão estava certa, mas a possibilidade de as duas estarem igualmente corretas ou até o facto de nunca vir a saber qual delas é mais verdadeira. Aí encontrei o modelo para a história de um neto que faz uma espécie de defesa em tribunal do avô.

Em que sentido?
O avô foi acusado a vida toda de certos crimes e o neto tenta defendê-lo, contrariando cada uma das mentiras que foram contadas sobre ele. No entanto, à medida que denuncia a mentira acaba também por a destacar. E o leitor nunca ficará a saber o que realmente aconteceu. Sem ter a certeza absoluta, tem de escolher, por razões afetivas ou por instinto.
Como foi a experiência de escrever sobre um tempo (a ditadura salazarista) que os seus pais e avós viveram?
Tive de me documentar bastante. Mas como a história que o neto conta não é exatamente correta, senti-me mais livre, pois não tinha de ser rigoroso. Eu gosto de escrever porque isso me faz pensar e questionar sobre a vida, o homem e o meu lugar no mundo. Por isso, não quis escrever um livro sobre a ditadura em Portugal, mas relacionar esse tempo com a forma como as gerações contemporâneas vivem e veem essa época. Além disso, o universo dos antifranquistas em Trás-os-Montes é fascinante. Parecem aventuras de índios e cowboys no meio das serras portuguesas.

E no outro extremo, foi fácil encontrar a voz de um jovem de 14 anos?
Foi a parte mais difícil e a mais revista. O livro intercala a narração do neto com as histórias do avô e levei tempo a encontrar o tom adequado, realista e literário, já que ele usa muitas expressões de um adolescente ao mesmo tempo que tem pensamentos complexos sobre o que está à sua volta.

Ao contar a história, o neto risca algumas frases. Porquê?
Cada vez mais interessa-me usar a mancha do texto para transmitir ou reforçar sensações. E neste caso fazia todo o sentido riscar algumas frases, porque uma parte do livro é passada na ditadura, quando havia censura nos jornais e no quotidiano. Mas também tem a ver com a própria ideia de Literatura: escrever, reescrever, apagar. Quando um leitor abre um romance, desconhece o que foi apagado. Aqui sabe, pelo menos, a dimensão e o local do texto eliminado. De certeza que algumas pessoas vão tentar imaginar o que ele escreveu, outras apenas respeitar o seu silêncio. Em qualquer dos casos, gostava que se fortalecesse a relação entre leitor e personagem.

Entrevista (que já segue o novo Acordo Ortográfico) publicado no JL 1056, de 23 de Março de 2011.

Histórias de Imagens

A caminho das livrarias, com a marca da Cotovia. Textos de Robert Walser a partir de imagens da pintura ocidental. Histórias fascinantes.

Wednesday, April 6, 2011

A vida dos livros

Nisso estamos de acordo: “Uma livraria é o último lugar onde se espera encontrar um cadáver”. Mas também não se pode dizer que a Papyrus, o palco de tão inesperadas mortes, tenha clientes normais. São antes “pacientes” ou “excêntricos”, dependendo da perspectiva da livreira de serviço, que fazem daquele espaço rodeado de livros a sua segunda casa. Uns dormem enquanto fingem que lêem, outros arrumam sorrateiramente as prateleiras, ordenando títulos em busca de um significado oculto, outros ainda compram sempre a mesma obra, reunindo num ano mais de 150 exemplares repetidos. Alguns aparecerão mortos. A Papyrus, afinal, é um lugar estranho. A livraria ideal para um detective apaixonado por literatura.

Nascido em Belgrado, em 1948, Zoran Živković pertence àquela categoria de escritores bibliófilos que fazem do livro o tema das histórias que escrevem, adoptando a célebre máxima de Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. E o escritor argentino não é aqui chamado por acaso. Como o autor de Ficções, Živković demonstra o mesmo gosto pela efabulação, pelos cenários especulativos e pelas muitas portas que cada história abre. Não teme, por isso, confundir realidade e fantasia, verdade e mentira, memória e ficção, o que se escreve e o que se lê. A prová-lo está O Último Livro, o seu segundo romance publicado em Portugal, depois de “A Biblioteca”, ambos da Cavalo de Ferro. “Quando se escreve em prosa, existe a realidade do escritor e a realidade do livro. Elas estão estritamente separadas”, diz uma das personagens deste romance (pág. 234). Mas o escritor não a ouve. Mistura tudo.

Com as suas muitas leituras, o inspector Dejan Lukić rapidamente perceberá que a livraria Papyrus não é um caso de polícia, mas um caso literário. Talvez esteja mesmo perante a ideia mítica, perseguida por muitos escritores, do livro que, uma vez lido, provocará a morte do seu leitor. É o tema que encontramos em O Nome da Rosa, abundantemente citado em O Último Livro, de Umberto Eco, ou em A Assassina Ilustrada, de Enrique Vila-Matas, entre muitos outros exemplos e variações. De resto, é esse misterioso poder da literatura que nos agarra no início, com os ingredientes de um bom policial. Pelo caminho, no entanto, o enredo perde-se, divagando por outros assuntos e sonhos que nos desviam do cenário inicial: uma livraria com propensão para a desgraça. Uma metáfora, no entanto, fica na memória. É que, bem vistas as coisas, os livros não matam. São, pelo contrário, fonte de vida. Real ou imaginária. E nisso também estamos de acordo.

Versão alargada de um texto publicado no Jornal i, a 19 de Maio.

Imaginar

"Não era tarefa fácil, a de relatar as quarenta últimas semanas. O desafio pareceu-lhe impossível. Tratava-se de uma matéria que se dilatava, resistia, escapava.
Umas vezes pensava que a dominaria melhor decompondo-a em dias ou em meses, outras vezes, em actos, talvez mesmo em cantos como nas epopeias antigas.
Ouvira dizer que seriam precisos quatro dias inteiros para recitar a Ilíada. Talvez bastasse outro tanto para a sua história. Como em qualquer história, devia fazê-la atravessar três fases: imaginá-la sem palavras, vesti-la de palavras, por fim, contá-la aos outros.
Um pressentimento sussurrava-lhe que só seria capaz de cumprir a primeira.
Foi assim que, numa noite de fim de Verão, ele se pôs verdadeiramente a imaginar."

O Acidente, de Ismail Kadaré, uma edição da Quetzal.

JL 1057

Hoje nas bancas.

Tuesday, April 5, 2011

Cata livros

Um mocho amarelo e um corvo negro são os cicerones do novo projecto multimédia da Fundação Calouste Gulbenkian, cujo objectivo é promover a leitura junto dos mais novos. "Cata Livros é um site dirigido a leitores iniciais que se queiram aventurar, a sós ou na companhia dos pais interessados e amigos interessantes, na descoberta do muito que cada livro contém, de quem cria esses seres misteriosos que habitam perto de nós e como os alimentar para o resto da vida", lê-se na apresentação. Com notícias, histórias, autores e muitas animações, este é um site a não perder.