Monday, March 28, 2011

Diário da terra do gelo 10

Aqui começa o dito de Sörli

A Leste do Vanakvist na Ásia encontrava-se o país de Ásia ou mundo de Ásia. Chamava-se Ásios o povo que o habitava. Eles chamavam à sua capital Ásgaror. O rei que aí reinava dava pelo nome de Odinn. Havia lá um grande local de sacrifício. Odinn nomeou Njord e Freyr sacerdotes sacrificantes (blotgodar). A filha de Njordr chamava-se Freyja, acompanhava Odinn e era sua amante. Havia na Ásia certos homens dos quais um se chamava Alfregg, outro Dvalinn, o terceiro Berlingr e o quarto Greer. Moravam nas imediações da "halle" do rei. Eram uns seres tão hábeis que faziam tudo na perfeição. Chamavam a essa espécie de homens anões. Habitavam um rochedo. Naquele tempo misturavam-se mais com os homens do que agora. Odinn amava muito Freyja, aliás ela era a mais bela mulher daquele tempo. Possuía uma pequena casa; esta era a um tempo tão bela e tão forte que, segundo contam, quando a porta estava fechada e trancada, nenhum homem podia penetrar no interior contra a vontade de Freyja. Um dia aconteceu que Freyja passou por aquele rochedo quando ele se encontrava aberto. Os anões estavam ocupados a forjar um colar de ouro. Era uma verdadeira obra-prima. O colar agradou muito a Freyja. Freyja também agradou muito aos anões. Ela propôs-lhes comprar o colar, oferecendo em troca ouro, prata e outros bens de alto preço. Eles declararam não precisar de riquezas. Todos afirmaram querer vender a sua parte do colar e nada mais desejar em troca senão que ela passasse uma noite com cada um deles. E quer ela se tenha acomodado bem ou mal à ideia, concluíram o negócio. Passada a quarta noite e preenchidas todas as condições, os anões entregaram o colar a Freyja, que regressou a sua casa e nada deixou transparecer como se nada se tivesse passado.

Saga islandesa do século XIV, traduzida por Irene Freire Nunes e publicada na antologia A Rosa do Mundo, uma edição da Assírio & Alvim.

Diário da Madeira 3

A ilha dos escritores

Durante o próximo fim de semana de 1, 2 e 3 de Abril, 20 autores portugueses e estrangeiros vão fazer da Madeira uma ilha de escritores. É a primeira edição do Festival Literário da Madeira, uma iniciativa da Booktailors - Consultores Editoriais e da Nova Delphi que inclui mesas temáticas, lançamentos de livros e visitas às escolas. Promover a ilha da Madeira enquanto destino de turismo cultural e dinamizar as letras e a literatura de origem madeirense são os principais objetivos deste encontro, que também quer contribuir para aumentar a oferta cultural já existente na região, abrindo espaços de convívio entre leitores e escritores.
Ainda antes da abertura oficial, no dia 1, às 19, o Festival arranca com visitas de escritores a quatro estabelecimentos de ensino da Madeira. Afonso Cruz, José Mário Silva, Paulo Sérgio Beju e Valter Hugo Mãe visitam a Escola de Machico, enquanto Mário Zambujal, Sandro William Junqueira, Pedro Vieira e Rui Zink vão à Escola de Ponta do Sol, ficando a Secundária Jaime Moniz para Inês Pedrosa e Isabel Figueiredo.
À semelhança de outros encontros do país, o Festival Literário da Madeira organiza-se em torno de várias mesas temáticas. Nesta primeira edição, o denominador comum é a ideia de escritor, nas suas múltiplas variantes. No dia 2, às 10 e 30, José Mário Silva, Patrícia Portela e Rui Zink, com moderação de Miguel Albuquerque, falam sobre Os escritores que fogem da fama. À tarde, às 15, é a vez d’Os escritores malditos, com Isabela Figueiredo, Sandro William Junqueira, Valter Hugo Mãe e Paulo Sérgio Beju, com moderação de Diana Pimentel. No mesmo dia 2, às 17 e 45, as atenções viram-se para Os escritores inconstantes, com David Machado, Inês Pedrosa e Raquel Ochoa.
No último dia, 3, haverá ainda espaço para duas mesas temáticas: Os escritores esquecidos, com Afonso Cruz, Eduardo Pitta, Violante Saramago e o italiano António Scurati, com moderação de Francesco Valentini, e Os escritores maltratados, com Graça Alves, Mário Zambujal e Pedro Vieira, com moderação de Francisco Faria Paulino.
Ao longo do Festival serão lançados ainda duas edições da Nova Delphi: A Queda d’um anjo, de Camilo Castelo Branco, e De profundis, de Oscar Wilde, obras apresentadas por José Viale Moutinho e Miguel Vale de Almeida, respectivamente.

Na cabeça de Bolaño

Roberto Bolaño não pára de nos surpreender. Da sua arca continuam a sair livros, completos ou inacabados, que reforçam a ideia de um autor insaciável, inventivo, labiríntico, genial, que produziu a um ritmo alucinante nos últimos oito anos de vida, a partir do momento em que teve consciência da proximidade da morte. E cada novo texto afigura-se parte de um mesmo todo, como se a obra do escritor chileno fosse um enorme puzzle que o leitor tem de construir e decifrar. Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, que agora se publica em Portugal, juntamente com um pequeno volume de entrevistas, é um exemplo dessa concepção literária. Trata-se de um romance inacabado, no qual trabalhou durante mais de 20 anos, desde os anos 80 até 2003, data da sua morte. Os cinco capítulos, dois encontrados no computador, três no arquivo em papel, remetem para diferentes fases de desenvolvimento. Nada disto, porém, diminuía a obra aos olhos do seu criador que, em 1995, numa carta dirigida a uma amiga mexicana, o apresenta como “o meu romance”, para depois acrescentar: “Oitocentas mil páginas, um enredo demencial que não há quem entenda”.

Quando se é autor de 2666 e Os Detectives Selvagens, dois dos maiores romances das últimas décadas, não é fácil colocar Os Dissabores do Verdadeiro Polícia no topo da pirâmide. Mas a afirmação do escritor chileno talvez aponte noutro sentido. Aqui encontramos personagens, situações e cenários que foram aprofundados ou reescritos noutras obras, como aconteceu com o seu primeiro livro A Literatura Nazi nas Américas, que inclui o embrião de Estrela Distante. O protagonista, “o homem de 50 anos” a que Bolãno se refere na mesma carta, é Amalfitano, que conhecemos de 2666. Acompanhamos parte da sua trajectória de vida, de Barcelona a Santa Teresa, com recordações do Brasil, Chile, Argentina. Também reencontramos Arcimboldi, o misterioso escritor do pós-guerra alemão, que Amalfitano traduziu e que tantos críticos procuram conhecer. Deles temos notícias nem sempre coincidentes com as de 2666 (nos nomes, nos livros, nas biografias), numa espécie de reflexo distorcido das ideias que fermentavam na cabeça de Bolaño.

Os Dissabores do Verdadeiro Polícia é, assim, um diário de bordo da sua grande produção romanesca, habitado pelos mesmos fantasmas e obsessões: a literatura, real e imaginária, a violência (as mulheres assassinadas de Juárez), a loucura e os limites da condição humana. Como Bolaño bem nos lembra, pela voz de Amalfitano, “um livro [é] um labirinto e um deserto”. Um jogo no qual o leitor (o verdadeiro polícia do título) tem de definir as regras. E encontrar o seu caminho.


Texto publicado no Jornal i, a 12 de Março de 2011.

Diário da terra do gelo 9

"A Islândia pagou caro a irresponsabilidade dos tempos em que nos diziam para pormos os olhos nela. Agora que está a tentar dar a volta é que passou a ser essencial segui-la." A Islândia e a forma como está a dar a volta à crise, num artigo de Rui Tavares. Para ler aqui.

Sunday, March 27, 2011

Histórias Daninhas


No próximo dia 4 de Abril arranca o projecto Histórias Daninhas, dinamizado por Guilherme Pires e João Afonso. Um espaço para contos curtos, com um limite máximo de 200 palavras, às segundas e às quintas-feiras. E para o futuro estas histórias entrarão em diálogo com outras expressões artísticas, saindo da página digital para intervir no mundo real. Apesar do projecto só arrancar oficialmente daqui a uma semana, o site já está on-line, com informações sobre a ideia original e com um extraordinário vídeo de promoção. Para ver e rever, muitas vezes, n'A volta do parafuso ou aqui.

Diário da terra do gelo 8

Mais notícias da terra do gelo, agora no Jornal i, e com um título muito sugestivo: "Islândia. O povo é quem mais ordena. E já tirou o país da recessão". Para ler aqui.

Diário da Madeira 2


O Festiva Literário da Madeira já tem site, com informações sobre o encontro, os escritores participantes, o programa, a Madeira e os promotores. Tudo com actualizações regulares. Para ler aqui.

Saturday, March 26, 2011

Diário da terra do gelo 7

O Canto da Völa

Convido-vos a ouvir-me, seres sagrados,
Poderosos e humildes descendentes de Heimdall:
Tu, Alfadir, queres que eu revele os destinos primitivos
Dos deuses e dos homens, os mais antigos de que tenho lembrança.

Lembro-me dos gigantes nascidos na aurora dos tempos,
Daquele que outrora me deram nascimento
Conheço nove mundos, nove domínios cobertos pela árvore do mundo.
Essa árvore sabiamente edificada que enterra as raízes no seio da terra.

Era no começo dos tempos em que Ymir vivia.
Não havia areia, mar, ondas refrescantes.
Não se via terra ou abóbada celeste.
Era um abismo gigantesco sem vegetação.

Era antes de os filhos de Buri terem erguido a crosta terrestre,
E edificado a esplêndida morada de Midgard.
O sol luzente do sul brilhava sobre os rochedos da terra:
E o solo cobriu-se de plantas verdejantes.

O sol do sul, o companheiro da lua,
Estendeu a mão direita para a orla do céu,
O sol não sabia o seu caminho;
A lua não conhecia o seu poder;
As estrelas não sabiam onde era o seu lugar.

Os deuses subiram para os seus cadeirais de juízes;
As divindades sagradas reuniram em concílio:
Deram um nome à noite e às fases da lua:
Regularam a hora da manhã e o meio do dia,
A tarde e o crepúsculo para medir o tempo.

Os Ases reuniram-se nas planícies de Ida.
Edificaram santuários e templos;
Construíram fornalhas, forjaram ouro,
Moldaram tenazes e fabricaram alfaias.

Jogaram aos dados no recinto e deram largas à sua alegria...

Profecia islandesa do séc. XI, traduzida por Maria Jorge Vilar de Figueiredo e publicada na antologia Rosa do Mundo, uma edição da Assírio & Alvim.

Singularidades do mercado editorial português

E, no espaço de um mês, chegaram às livrarias portuguesas não uma, nem duas, nem três, mas quatro edições diferentes d'O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Duas (Presença e Clube do Autor) usam a mesma tradução, de José Rodrigues Miguéis, uma (Europa-América) aposta na capa dura e a última (Relógio d'Água) integra um projecto de publicação das obras mais importantes do escritor norte-americano. As quatro estão de acordo: um clássico da literatura mundial. Nada como a variedade. Ou não.

Literatura Espanhola

A Literatura espanhola dos últimos 70 anos está em destaque na edição de hoje do Babelia do El País. Um A a Z apresenta os principais nomes, tendências e causas dos escritores do pós-guerra aos da geração X. Para ler aqui.