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Wednesday, March 30, 2011

Ângelo de Sousa

Eram famosos, entre amigos e colegas, os desenhos que Ângelo de Sousa fazia durante os conselhos pedagógicos e científicos a que tinha de assistir e muitas vezes presidir na Faculdade de Belas Artes do Porto, onde se licenciou (com nota final de 20 valores, tal como Jorge Pinheiro, Armando Alves e José Rodrigues) e onde deu aulas durante muitos anos. Mas o desenhador, pintor, escultor e fotógrafo (esta última arte praticada sobretudo durante o PREC) não desvalorizava as suas responsabilidades académicas, apenas punha o inconsciente a trabalhar. Foi o que me garantiu quando o entrevistei a propósito da exposição Escultura, que apresentou na Gulbenkian em 2006: "Eu não estava distraído da reunião", atirou. "Estava era distraído do desenho, mas mesmo assim continuava".
Desse contacto directo com a sua criatividade nasceram centenas de obras, que tanto prestavam tributo à simplicidade (as cores primárias, as formas geométricas) como à elaboração, filiando-se nas grandes questões que atravessaram as últimas décadas da contemporaneidade (a relação entre alta e baixa cultura, a noção de espaço e sua interacção com o espectador, o papel da cor e a ideia de substractos que se sobrepõem ou justapõem).
Um inesperado telefonema avisou-me agora da sua morte, já noticiada pela Rádio Renascença, e eu lembrei-me da sua militância pela arte, da sua simpatia e do seu humor. Jamais esquecerei a forma como, muito animado, me contou que uma das primeiras coisas que fez quando chegou a Portugal - nasceu em Maputo, em 1938 - foi comprar o primeiro volume da viagem à Lua do Tintin. "Passei anos a tentar perceber como é que ele tinha ido lá parar", disse-me, para depois acrescentar: "É que, em criança, só consegui comprar o segundo volume..." Pelo meio, a imaginação colmatou os espaços em branco. E a arte fez o resto.